O ano de 2016 foi marcado pelo mais baixo crescimento de receitas das companhias brasileiras de capital aberto desde ao menos 2011, como reflexo da crise econômica que levou a uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) de 3,6%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Levantamento feito pelo Valor Data, a partir dos resultados de 253 empresas não financeiras aponta para um crescimento consolidado de receita líquida de 0,4% em 2016, na comparação com 2015, contra avanço médio de 8,2% nos cinco anos anteriores, de 2011 a 2015. Excluídas Petrobras, Eletrobras e Vale, as receitas tiveram variação positiva de 0,1% em 2016, contra crescimento anual médio de 10,2% de 2011 a 2015.
Mas, considerada a inflação acumulada no ano, de 6,29%, conforme o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), houve queda real de receitas nas duas métricas.
Diante do cenário ruim, houve alguns sinais de alívio nos balanços finais. O resultado operacional basicamente vendas menos custos e despesas mais do que duplicou no ano passado, como efeito dos melhores desempenhos de Petrobras, Eletrobras e Vale, cujos balanços de 2015 haviam sido fortemente afetados por itens não recorrentes. Sem as três gigantes, no entanto, o lucro operacional teve queda, apesar do esforço de muitas empresas para ajustar custos e despesas.
No quarto trimestre de 2016, a fotografia mais recente da situação das companhias, os resultados vieram acima do esperado pelos analistas. A melhora, no entanto, também ficou muito concentrada em Vale e Petrobras, com números impulsionados pelo preço das commodities e por enxugamento de custos. O resultado operacional cresceu 159% em 2016, revertendo baixas registradas nos últimos dois anos, principalmente devido ao fato de que Petrobras, Eletrobras e Vale saíram do prejuízo ao lucro operacional de 2015 para 2016. Retiradas as três empresas, o operacional recuou 1% no ano passado, menos do que a queda de 6% de 2015.
O lucro líquido consolidado das 253 companhias somou R$ 44,3 bilhões, revertendo prejuízo de R$ 67,3 bilhões em 2015. Desconsideradas as duas estatais e a mineradora, a linha final dos balanços cresceu 62%, para R$ 42,4 bilhões, devido principalmente ao impacto da valorização do real sobre as despesas financeiras das companhias com dívida em moeda estrangeira. O endividamento líquido das empresas diminuiu 12,5% em 2016, ou 6,6% sem as três grandes. A alavancagem financeira, medida pela relação entre dívida líquida e patrimônio líquido caiu a 76,4%, ante pico de 86,3% em 2015. Sem Petrobras, Eletrobras e Vale, o indicador passou de 64,8% em 2015 para 61% em 2016.
Para Andrew Campbell, estrategista do Credit Suisse, os destaques positivos de 2016 foram a Vale, devido ao preço do minério de ferro melhor do que o esperado, e a Petrobras, com iniciativas em custos e venda de ativos. A apreciação do real contribuiu para as empresas com exposição das dívidas em dólar, embora, de outro lado, tenha punido companhias com receita na moeda americana.
"Além de esforços operacionais e algumas iniciativas tomadas pelas empresas, tivemos a alta de preços de commodities e a apreciação do real e, em último lugar, a tendência da inflação. Esses foram os pontos de alívio do ano", considera Campbell. "Entretanto, quando olhamos em linhas gerais, ainda vemos um ambiente de crescimento muito fraco", pondera o analista. O estrategistachefe da Eleven Financial Research, Adeodato Volpi Netto, acredita que o cenário geral do ano ficou ainda mais claro nos resultados de outubro a dezembro. "A deterioração da atividade econômica, depois de dois anos de queda de PIB, veio refletida em grande parte dos balanços do quarto trimestre, com indústria, construção civil e varejistas mostrando o tamanho do estrago."
"Por outro lado, houve um filtro qualitativo muito importante, das companhias que se preparam no período de crise, usando a retração de demanda e as condições de mercado para readaptar negócios e estrutura de capital para a hora que a mudança chegar", destaca Volpi Netto. "Depois de muito tempo, essa foi a temporada de balanço que mais claro separou o joio do trigo."
Entre as companhias bem sucedidas em promover ajustes em meio à recessão, o analista destaca a varejista Magazine Luiza, que fortaleceu sua operação de varejo online e reduziu o tamanho de lojas físicas; a mineradora Vale, que cortou custos e redesenhou projetos, se adaptando a um cenário de preços mais baixos do minério; e a PBG (novo nome da fabricante de cerâmicas Portobello), que, com uma fábrica nova em Alagoas, está pronta para vender ao Nordeste, quando a economia da região se recuperar. Se o pior ficou para trás, o que esperar para o primeiro trimestre de 2017? Para Lucas Tambellini, analista do Itaú BBA, se acontecer qualquer recuperação de PIB, a próxima temporada de resultados tem tudo para trazer balanços melhores.
"No quarto trimestre, os analistas foram surpreendidos para cima. Parou de piorar, especialmente se olharmos como foi a atividade e o PIB no trimestre [com queda de 0,9%]", afirma.
"Se as commodities se mantiveram, teremos uma continuação do resultado positivo, em especial de Petrobras e Vale. E se o cenário macroeconômico ajudar, veremos uma melhora também nos demais setores", diz.
Fonte: Valor - Empresas, por Thais Carrança e Juliana Machado, 05/04/2017

