O crédito é o combustível da economia. Sem crédito investimentos de longo prazo são impossibilitados, novas tecnologias não são adotadas e inovações são esquecidas. Além disso, sem crédito a economia não funciona no curto prazo, pois boa parte das firmas precisa de capital de giro para manter a produção em dia. No Brasil o volume de crédito se expandiu de forma extraordinária na última década, partindo de 25% do PIB em 2003 para 58,9% atualmente. Assim, a estrutura da economia hoje é bem diferente do passado. Mas como essa expansão de crédito afetou a evolução da economia e, principalmente, o que mudou nesta nova economia brasileira?
Não há dúvidas que a expansão de crédito foi fundamental para impulsionar um ciclo de crescimento no período. As reformas iniciadas em 2003 implicaram aumento das garantias aos emprestadores, reduzindo o risco de perdas. Dentre estas, duas foram especialmente importantes: o aumento das garantias dadas aos bancos ao ofertar empréstimos às firmas sob uma nova lei de falências; e a expansão do crédito para pessoas físicas por meio de ajustes nas condições do crédito consignado e do crédito habitacional.
Tais reformas ampliaram a demanda por um lado, mas também levaram a uma melhoria nas condições de crédito para as firmas. Isso foi fundamental para manter a atividade econômica dentro de um padrão de crescimento favorecido por choques positivos nos termos de troca e pela estabilidade da economia durante os anos que sucederam estas reformas.
Com multiplicador fiscal reduzido, corte de gastos terá um efeito reduzido sobre o crescimento
Sabedor da importância do crédito o governo tentou implementar políticas para manter a sua expansão por mais tempo, com subsídios ao crédito em diversas frentes e implementação de incentivos aos bancos para ampliarem determinadas linhas de crédito. Porém tal expansão forçada não culminou na continuidade do crescimento. Enquanto a primeira expansão tinha sido causada por uma redução de riscos e de restrições, a segunda foi custeada por tributação e foi direcionada a determinados segmentos, o que aumentou a ineficiência alocativa na economia, reduzindo a produtividade.
Mais do que isso, a expansão de crédito atingiu seus limites, esta fonte de crescimento se esgotou e será difícil adotar qualquer política nesta direção nos próximos anos. Isso ocorre não apenas pelas restrições de liquidez existentes, como também do maior endividamento das famílias, que em 2005 girava em torno de 20% da sua renda anual e hoje está em cerca de 46%. Assim, uma política de expansão de crédito não apenas é inviável, como passa a ser arriscada, diante da maior vulnerabilidade dos tomadores de crédito.
Porém a principal mudança na estrutura da economia causada pelo acesso ao crédito na economia certamente foi o comportamento dos consumidores. Até a década de 90 a economia brasileira tinha como característica intrínseca a elevada volatilidade do consumo. Diversos trabalhos mostravam que, ao contrário do que é observado em todas as economias desenvolvidas, o consumo era mais volátil que o produto.
Esse comportamento do consumo era visto como um "puzzle" uma vez que o prescrito pela teoria econômica tradicional é que os agentes tendem a suavizar o consumo no tempo de forma que ganhos temporários de produto não seriam refletidos no consumo. A razão principal para explicar tal enigma era a elevada restrição ao crédito que a maior parte dos consumidores se deparava.
Com a expansão de crédito ocorrida na economia brasileira nos últimos anos a situação se inverteu. Agora o consumo é muito menos volátil no tempo e os consumidores respondem muito menos a choques no produto, à medida que podem suavizar seu consumo no tempo.
Qual a implicação disso para a política econômica? O efeito multiplicador dos gastos públicos fica reduzido. Quando o governo altera os seus gastos, ele fornece choques temporários na renda das famílias, que por sua vez aumentam seu consumo. Essa é a ideia básica do multiplicador fiscal, e quanto maior for o transbordamento desse choque sobre o consumo, maior o impacto da política fiscal sobre o produto.
Com a expansão de crédito as famílias começaram a suavizar cada vez mais seu consumo ao longo do tempo e, como consequência, o efeito marginal dos gastos públicos sobre o produto ficou cada vez mais reduzido pois os choques provocados sobre a renda não são mais repassados ao consumo com tanta força. Hoje diversos estudos demonstram que o consumo é menos volátil, respondendo menos a choques, e que o multiplicador fiscal diminuiu.
Assim, nessa nova economia brasileira em que vivemos hoje as famílias têm mais acesso ao crédito, que faz com que o consumo seja muito menos volátil. Os choques na renda são acomodados no tempo e não mais propagados pelas famílias. Assim, a propensão marginal a consumir, que é a proporção da variação da renda que é repassado ao consumo, diminuiu. A expansão do crédito alterou os parâmetros da economia, implicando uma redução do impacto da política fiscal sobre o produto.
Nessa nova economia brasileira, com comportamento mais próximo das economias desenvolvidas, um governo que se esforça para expandir o crédito não deve expandir também os gastos, pois a sua política de crédito inibe a política fiscal.
A boa notícia é que com um multiplicador fiscal reduzido, um ajuste fiscal realizado sob corte de gastos terá um efeito reduzido sobre o crescimento. Assim, embora tenhamos pelo menos um ano de crise pela frente, sabemos que é possível fazer o ajuste fiscal requerido para evitar uma trajetória explosiva da dívida sem aprofundar ainda mais a crise.
Fonte: Valor Econômico, por Vladimir K. Teles , 25/03/2015

