Exatamente um ano depois da declaração de pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com uma inesperada recessão em quase todo o mundo, pesquisa inédita com 5.050 executivos em cem países e territórios indica a volta da esperança na retomada da economia global.

A 24ª edição anual da CEO Survey, conduzida pela consultoria PwC, aponta que 76% dos executivos acreditam em melhoria do ambiente econômico em 2021 e 36% estão “muito confiantes” no crescimento de seus próprios negócios ao longo dos próximos 12 meses.

No caso específico do Brasil, as respostas carregam um tom ainda mais otimista: 85% apostam que a economia global terá um desempenho melhor em 2021 e 53% veem perspectiva de crescimento das suas empresas nos próximos 12 meses.

A pesquisa da PwC é divulgada todos os anos, em janeiro, como uma espécie de pontapé inicial das discussões do encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça). Ela serve como grande termômetro do ânimo empresarial.

Desta vez, com a suspensão do encontro presencial em Davos e incertezas em torno da pandemia, o levantamento foi adiado. As entrevistas foram realizadas entre janeiro e fevereiro para captar melhor os efeitos de pelo menos três eventos internacionais: os primeiros efeitos da vacinação contra a covid-19, a posse do presidente Joe Biden nos Estados Unidos e o desfecho das negociações para o Brexit.

“Após um ano de tragédia humana e grandes dificuldades econômicas, é encorajador ver que as pessoas responsáveis pela tomada de decisões de investimento e por contratações de pessoal estão se sentindo cautelosamente otimistas em relação ao ano à frente”, afirma o sócio-presidente da PwC Brasil, Marco Castro.

“Os CEOs acreditam que o crescimento retornará, impulsionado pelo rápido desenvolvimento de vacinas e suas aplicações em muitas partes do mundo”, diz Castro.

Um dos aspectos que chamam a atenção na nova edição da pesquisa é a percepção dos executivos sobre potenciais ameaças ao crescimento de suas empresas. Há uma dissonância entre os pontos de preocupação dos CEOs estrangeiros e dos CEOs brasileiros.

Pandemias e outras crises sanitárias, ameaças cibernéticas e excesso de regulação estão no topo das “ameaças” em âmbito global, segundo a pesquisa.

Já os executivos brasileiros dão mais importância relativa a questões domésticas e colocam suas preocupações na seguinte ordem: incerteza na política tributária, pandemias e outras crises sanitárias, incerteza em relação a políticas, aumento das obrigações tributárias e crescimento econômico incerto.

Para Castro, há certo consenso de que reformas como a tributária não andaram na velocidade esperada, mas os executivos têm clareza sobre a relevância de tocar seus negócios independentemente do cenário macroeconômico, sem ficar parados e aguardando “reformas ou privatizações que não vêm”.

“Aprendemos que precisamos ter decisões rápidas e ágeis. Ficou claro, para os líderes em geral, que é preciso estar atento para os temas de maior impacto para as pessoas, para a sociedade, para o mercado”, diz Castro.

O levantamento também detectou, no Brasil, maior nível de preocupação em relação à média mundial com temas como “misinformation” (informações imprecisas ou distorcidas que geram percepções errôneas) e declínio no bem-estar da força de trabalho.

Mudanças climáticas subiram da 23ª posição para 13ª na lista de ameaças. Entre 2020 e 2021, subiu ainda a inquietação com o populismo (de 42% para 47%), com a volatilidade cambial (de 38% para 45%) e com distúrbios na cadeia de abastecimento (de 9% para 31%).

O período das entrevistas, no entanto, deixou de fora as semanas mais recentes de agravamento da pandemia no Brasil. Na quarta-feira, pela primeira vez, o número de mortes registradas em decorrência da covid-19 superou a marca de 2 mil no país, fato que se repetiu ontem. “Talvez, se tivéssemos feito a pesquisa nesta semana o resultado fosse outro”, admite Castro.

Ele avalia, porém, que as conclusões continuam válidas e identifica razões para acreditar na recuperação da economia: liquidez internacional, barateamento do crédito, maior velocidade na incorporação de tecnologias no dia a dia, poupança forçada em segmentos da população.

“O consumo reprimido afetará a nossa economia positivamente. As pessoas estão desesperadas para consumir o que elas foram impedidas de usufruir por causa das restrições sanitárias”, afirma.

No Brasil, 48% dos CEOs disseram ter a expectativa de “aumento moderado” na contratação de mão de obra pelos próximos 12 meses. Outros 14% veem tendência de “aumento forte” no quadro de pessoal.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Daniel Rittner — De Brasília, 12/03/2021