Para desacelerar a inflação, seria necessário um juro real de 3%, mas o Banco Central não deve elevar a Selic a este ponto por causa da fraqueza da atividade, segundo o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.
O Comitê de Política Monetária (Copom) mudou de postura na virada do ano ao adicionar à constatação de que a alta dos preços do petróleo passou de choque a tendência a avaliação de que a inflação havia convertido para a meta, diz Gonçalves. “Só essa avaliação sobre a inflação já garante uma alta da Selic. Minha leitura é que o BC elevará a taxa para algo entre 1 e 1,5 ponto percentual acima da inflação prevista nas próximas duas reuniões”, disse o economista ao participar de Live do Valor.
Resta a questão do que fazer na reunião seguinte a essas duas, quando a piora da economia estará clara, afirma Gonçalves. Assim, ele vê um cenário em que a Selic chegue a 5% ou 5,5% em 2021. “A não ser que a atividade econômica frustre tanto que essa taxa real de 1,5% não se verifique”, diz, acrescentando que este é um cenário possível.
O segundo passo do BC seria elevar a Selic a um nível que desacelere a inflação, que seria 3% em termos reais num horizonte mais longo. “Mas não vai dar para mirar esses 3% por causa da atividade.”
Para Gonçalves, sem um combate adequado da pandemia de covid-19 no país, e com um cenário externo que se tornou mais desafiador, a perspectiva para a economia é desfavorável. O governo tem perdido um tempo precioso em embates com governos regionais, diz. “O governo federal aposta numa situação de que se a pandemia e a economia vão mal a culpa é dos governadores e do distanciamento social. Acho que isso, em última instância, é o que determina a atividade econômica”, afirmou.
O atraso na volta do auxílio emergencial, principal responsável pela sustentação da demanda e da queda menor do PIB em 2020, diminui as chances de uma melhora da atividade. No fim do terceiro trimestre, quando ficou claro que a intenção do governo era zerar o auxílio, houve uma queda na atividade, lembra o economista. O risco agora é o mesmo: um corte da transferência de renda, numa situação em que o mercado de trabalho não vai melhorar. “Há um movimento de contração da renda das famílias muito grave”, afirma.
Gonçalves observa que dados do índice de custo da construção, contido nos IGPs, mostram que o custo da mão de obra está crescendo cerca de 3% em 12 meses, o que seria uma aproximação dos reajustes de salários no setor, que foi o que mais criou emprego no ano passado. “Os IPCs estão caminhando para 5% [no ano] e a remuneração do trabalho está em 3%. Isso é contração real da renda.” Para o economista, apenas o novo auxílio, menor e para menos pessoas, não será suficiente para sustentar o ritmo da atividade em 2021. Nem a poupança guardada pelas famílias de maior renda.
“A poupança não deve sustentar o consumo. Aquela bolha de poupança adicional do ano passado ainda está lá, parada. Enquanto a insegurança persistir esses recursos serão gastos com muita cautela”, diz. “Caminhamos para situação bastante complicada, piorando claramente. Não tem ninguém que diga que estamos melhor do que imaginávamos no ano passado”.
Sobre a “variável Lula”, que mexeu com câmbio, bolsa e juros nos últimos dois dias, Gonçalves diz que, no curto prazo, Bolsonaro pode se beneficiar se voltar ao discurso do anti-PT. Por outro lado, neste momento é difícil antecipar o nível de apoio que o ex-presidente teria e sua capacidade de viabilizar uma candidatura de centro-esquerda à Presidência da República. A grande novidade, diz, pode estar no desgaste de Bolsonaro com o desemprego, a inflação e a pandemia, num cenário em que ele não consiga empurrar a responsabilidade da recessão e da falta de vacinas para os governadores.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Ana Conceição — De São Paulo, 10/03/2021

