No momento em que o Brasil enfrenta o momento mais trágico da pandemia, com o aumento de 30% de mortes diárias por covid-19 na média móvel dos últimos 40 dias, o presidente Jair Bolsonaro voltou a minimizar os riscos da maior crise sanitária da história. “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”, disse ele, ontem, ao participar de evento em São Simão (GO).

Exaltado, Bolsonaro discursou contra medidas de isolamento social que Estados e prefeituras vêm adotando para lidar com o agravamento da pandemia, que já tirou 261.188 vidas, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Nas últimas 24 horas, houve novo recorde diário de mortes, 1.786.

Na cúpula do Ministério da Saúde, a expectativa é que o Brasil atravesse nas próximas duas semanas o pior momento da pandemia. O Valor apurou que, em sua projeção, o número de mortes irá a 3 mil nesse período. A piora é atribuída à circulação de novas variantes do coronavírus, ao iminente colapso do sistema hospitalar em todo o país, à lentidão da vacinação e à baixa adesão da população às medidas de isolamento social.

O governo federal segue lidando de forma política com a crise sanitária. Não vai decretar “lockdown” nacional, deixando essa decisão a cargo de prefeitos e governadores, e continua impedindo que os Estados importem vacinas.

A impressão de governadores que estiveram reunidos nesta semana com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, é que os Estados dificilmente conseguirão importar vacinas sozinhos ou em consórcio, sem ter que entregar o produto à União. Neste momento, consórcio de Estados nordestinos aguarda autorização do STF para a aquisição.

Para o governador da Bahia, Rui Costa (PT), a conduta de Bolsonaro reflete cálculo eleitoral que deve garantir-lhe uma vaga no 2º turno da eleição em 2022. “A conta dele é esticar a corda ao máximo, para polarizar. Com isso, ele junta 30% dos votos”, disse.


Fonte: Valor Econômico - Impresso, por Fabio Murakawa e Marina Falcão — De Brasília e do Recife, 05/03/2021