A má condução da pandemia pelo governo Bolsonaro e pelo Congresso deverá ter efeitos concretos nas projeções dos modelos econômicos do Banco Central, levando a menos crescimento da economia, mais inflação e provavelmente juros mais altos.
As expectativas do mercado para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 se contraíram, de 3,5% para 3,29% nas últimas quatro semanas. A projeção para a inflação para o ano aumentou, passando de 3,53% para 3,87%.
O quadro negativo se completa com a expectativa de uma alta mais forte dos juros básicos. Até fins de janeiro, o mercado achava possível que o início de aperto monetário começasse em maio ou depois. Agora, o consenso é que comece em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC dentro de dez dias.
O tamanho do aperto monetário vislumbrado pelo mercado financeiro também se tornou mais intenso. A projeção dos analistas econômicos é que, no fim deste ano, a meta da taxa Selic chegue a 4% ao ano. Há quatro semanas, a previsão era 3,5% ao ano.
A deterioração das expectativas do mercado não é por acaso. Os analistas privados rodam modelos de projeção econômica que procuram replicar os utilizados pela autoridade monetária. A situação atual leva, na conta de ambos, a mais inflação, a menos crescimento e a juros mais altos.
O Banco Central divulgou em dezembro, pela primeira vez, detalhes de um dos seus principais modelos de projeção de inflação, que incorpora entre as suas variáveis o chamado Indicador de Condições Financeiras (ICF).
A segunda onda da pandemia, e a resposta fiscal do governo e Congresso, entendida pelos mercados como pouco sustentável, levaram a uma piora nesse indicador. Em termos práticos, ele sintetiza o mau desempenho recente da bolsa, a alta dos juros futuros, a deterioração do risco país e a disparada do dólar.
Nos modelos do BC, o Indicador de Condições Financeiras entra no cálculo da atividade econômica, um passo para calcular o nível de ociosidade da economia. Uma deterioração nesse indicador leva a uma queda da atividade e uma maior ociosidade.
Em tese, esse ambiente deveria contribuir para uma inflação menor. Mas isso não ocorre quando as condições financeiras são causadas por um choque de incerteza gerado pelo próprio governo e Congresso, como o que ocorre ultimamente - em que se pese o pequeno respiro ocorrido no mercado ontem.
Em 2018, o BC publicou um texto técnico que mostra como choques de incerteza econômica - como a ampliação da desconfiança dos mercados com a política fiscal - costumam causar, ao mesmo tempo, um aumento da inflação e queda da atividade econômica. Tudo o mais constante, exigem juros mais altos do que sem o choque.
Isso acontece porque esses choques levam, de um lado, a uma alta da cotação do dólar, que provoca um aumento da inflação quase imediato; e, de outro, a uma contração da atividade, que tem efeitos desinflacionários apenas no longo prazo. Tudo somando, o impacto inflacionário prevalece, e leva dois anos para se dissipar.
Na primeira onda da pandemia, nada disso aconteceu. A inflação inicial era mais baixa, a dívida pública menor e o mercado considerou a resposta fiscal do governo adequada.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro — De São Paulo, 05/03/2021

