O governo de São Paulo anunciou ontem nova revisão das medidas restritivas para combate à pandemia de covid-19. Conforme o Valor antecipou na terça-feira, todo o Estado foi reclassificado para a fase vermelha, a mais dura do Plano São Paulo. As medidas valem a partir da 0h do próximo sábado, 6 de março, e vão até o dia 19. Mas no centro de contingenciamento ao coronavírus no Estado já há quem defenda que apenas duas semanas não serão suficientes para diminuir as taxas de ocupação de leitos de enfermaria e UTI, principalmente no oeste do Estado e na região metropolitana de São Paulo.

O governo paulista anunciou ainda que o “toque de restrição” no Estado, que teve início no dia 26, das 23h às 5h, passa a valer a partir das 20h durante a fase vermelha, que começa sábado.

“É a realidade de um país comandado por um negacionista que não tem coordenação da saúde”, disse o governador João Doria, durante entrevista coletiva ontem. Segundo o tucano, brasileiros vão enfrentar agora as duas piores semanas da pandemia. Ele acusou o governo federal de negligência, incompetência e inoperância.

“Não temos alegria nessa informação, temos a tristeza de reconhecer a situação dificílima de São Paulo”, afirmou.

Doria disse ainda que o Estado aumentou em 152% o número de leitos para coronavírus.

“Quero dizer que São Paulo está abrindo 500 novos leitos, 339 de UTI e o restante de enfermaria”, detalhou. Os equipamentos estão distribuídos em hospitais públicos, santas casas e serviços filantrópicos da rede pública de atendimento, segundo o governador.

A revisão é uma resposta às recomendações do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, que já vinha alertando para a escalada da pandemia e seu impacto no sistema de saúde. Ontem, o Estado registrou novo recorde: 468 novos óbitos, segundo a Secretaria Estadual da Saúde.

O governador paulista, que vinha evitando adotar medidas mais drásticas em razão do desgaste político, já havia reconhecido anteontem que não só o Estado, mas todo o país, passa pela pior semana desde o começo da pandemia. O Brasil contabilizou no fim do dia 1.840 mortes por covid-19 em 24 horas, segundo levantamento feito pelo consórcio de veículos de imprensa com base em dados públicos das secretarias estaduais de Saúde. Foi o maior número de óbitos decorrentes da doença causada pelo novo coronavírus computado em um intervalo de 24 horas. Com isso, o total de mortes provocadas pelo novo coronavírus subiu para 259,4 mil.

Outra preocupação da equipe de saúde de São Paulo é que a permanência dos pacientes em leitos de terapia intensiva está se prolongando mais que o verificado durante a primeira onda da pandemia. Na coletiva de segunda-feira, o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, alertou para alta expressiva na ocupação dos leitos de terapia intensiva, em relação ao uso dos leitos de enfermaria na rede hospitalar do Estado. Segundo ele, na primeira onda da pandemia, a taxa em enfermarias costumava ser mais alta do que a registrada em UTIs.

O secretário disse que pacientes mais jovens, de 30 a 50 anos, com condições clínicas mais comprometidas passaram a dar entrada em UTIs. E esses pacientes ficam internados por período mais prolongado em relação ao que ocorria na primeira onda da pandemia.

A combinação de alguns aspectos - gravidade da doença, tempo de permanência maior nas unidades de internação, maior número de casos e a presença de novas variantes - faz com que a ocupação de UTIs se mantenha crescente.

A bandeira vermelha permite o funcionamento apenas de setores essenciais da economia, como mercados, farmácias, postos de combustível, transportes coletivos e serviços de hospedagem. Dessa vez Doria permitiu o funcionamento de igrejas e templos religiosos, que definiu como “atividade essencial”, apesar do potencial de aglomerações em locais de cultos localizados principalmente em regiões de periferia.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Leila Souza Lima e André Guilherme Vieira — De São Paulo, 04/03/2021