A alta de matérias-primas como minério de ferro e alumínio e a nova onda de desvalorização do real frente ao dólar pressionam os preços no varejo de material de construção. Grandes redes buscam negociar mais de perto com fornecedores, mas não têm conseguido evitar o repasse de aumentos ao consumidor. Ao mesmo tempo, gargalos na produção no mercado interno e externo, causadas pela pandemia, ainda levam à falta de determinadas mercadorias nas lojas.
Na lista de produtos afetados neste ano pela escassez estão linhas de louças e metais importados, tubos e conexões, madeira certificada e certos tipos de pisos. A oferta de tintas, que em 2020 sofreu com a falta de latas para armazenagem, já está mais estável. Entre os produtos que têm sido alvo de novas tabelas por parte da indústria estão aço, fios de cobre, alumínio (esquadrias), tubos e conexões e louças para banheiro.
Esse cenário é reflexo também de um aumento da demanda, que elevou as vendas do setor em 2020, e que ainda tem efeito neste início de ano. Em 2020, o faturamento do varejo de material de construção cresceu 11%, e a projeção neste ano é de alta de até 5%, segundo a Anamaco, associação do setor. O aumento na entrega de imóveis novos pelas construtoras e a realização de pequenas reformas durante as medidas de isolamento social, além da liberação do auxílio emergencial, pesam nesse desempenho.
Segundo a direção da rede Leroy Merlin, apesar do fim do ‘coronavoucher’, esse efeito sobre as vendas ainda leva algum tempo. “ Tivemos um bom começo de ano, que levou a um aquecimento nas vendas de certas linhas. E são produtos que ainda sentem também um aumento da demanda global. Isso continua desorganizando algumas cadeias de produção”, disse Adriano Galoro, diretor central de compras da Leroy Merlin. A rede tem cerca de 40 lojas no país.
Ele diz que, como a rede é uma compradora de grandes volumes, é possível “segurar um pouco os repasses” ao consumidor. “Mas mesmo assim ainda vieram aumentos em novembro, dezembro, janeiro e fevereiro”. Nesse grupo de produtos estão fios de cobre e aço.
Galoro diz que a empresa está sentando com fornecedores e explicando que parte do aumento de vendas é apenas reflexo de reajuste de preços. “Há casos em que não subiu volume vendido, foi só aumento de preço, e temos que tratar disso com eles”.
Esse cenário torna difícil um planejamento mais de longo prazo no varejo, diz o executivo. “O que fizemos foi nos aproximar mais de certas indústrias. Se antes tínhamos um planejamento de compra de um mês, hoje estendemos esse prazo para seis meses em alguns casos. É uma forma de se programar de maneira antecipada”, afirma Galoro.
Para a Telhanorte, com cerca de 80 lojas no país, hoje a falta de produtos traz mais impacto para o negócio do que uma desaceleração de demanda. Na semana passada, por exemplo, a empresa voltou a ter novas conversas com fornecedores de cobre para tentar estabilizar a entrega e tratar possivelmente de novas tabelas de preços.
De acordo com Rodrigo Pothin, diretor comercial da Telhanorte, no caso de determinados produtos chineses, como louças e metais, é difícil negociar com o fornecedor por causa do efeito direto do câmbio no preço. Em outras situações, como aço, alumínio e PVC, a alta demanda é a justificativa para os reajustes.
A varejista passou a trabalhar nos últimos meses com uma agressividade promocional menor como forma de tentar manter alguma estabilidade de preços. Isso acaba ajudando a proteger margem, e evitar maiores aglomerações nas lojas. “Onde tenho mais espaço de margem, estou tentando manter preços o maior tempo possível”, afirma o executivo.
Pothin diz que a empresa registrou um início de ano com vendas aquecidas, mantendo o ritmo de crescimento de 2020, mas apesar desse desempenho, já identificou um movimento de consumidores com comportamento de compra mais racional. “Já vimos algum movimento de clientes buscando marcas mais baratas”.
A Anamaco, associação do setor, projeta para 2021 três cenários: de alta nas vendas de 1% a 1,5% (pessimista), de 3 a 3,5% (moderado) e de 4,5% a 5% (otimista). Para a associação, mesmo com o recente crescimento do setor, a alta no desemprego e o fim do ‘coronavoucher’ acabam limitando cenário de expansão muito superior ao PIB em 2021.
“Houve uma desorganização da cadeia em 2020 e, em 2021, é preciso buscar um equilíbrio maior, entre ofertas e preços, sob risco de o pequeno lojista quebrar. O grande varejista tem escala, o pequeno não consegue segurar tantas pressões dois anos seguidos”, disse Waldir Abreu, superintendente da Anamaco.
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Adriana Mattos — De São Paulo, 04/03/2021

