A elevada dose de estímulos concedida pelo governo evitou uma recessão mais severa em 2020, mas o início da retirada dos incentivos, combinado à piora da pandemia, esfriou a recuperação da atividade econômica no fim do ano passado, avaliam economistas.

Segundo a mediana de estimativas de 40 instituições financeiras e consultorias, o PIB cresceu 2,8% no quarto trimestre em relação ao terceiro, feitos os ajustes sazonais, depois de avançar 7,7% de julho a setembro. Para 2020, os economistas projetam queda de 4,2% no PIB. No fim de junho e começo de julho, o consenso de mercado do boletim Focus chegou a estimar recuo de cerca de 6,5% da economia na média do ano, mas algumas casas previam contração de até dois dígitos.

As projeções para as Contas Nacionais Trimestrais referentes ao último trimestre de 2020 vão de alta de 2,3% a 3,4% na comparação com o trimestre imediatamente anterior. O resultado será divulgado nesta quarta-feira pelo IBGE. Frente ao quarto trimestre de 2019, a expectativa é que a economia tenha encolhido 1,6%.

“O ano de 2020 deve encerrar registrando queda de 4,3% do PIB, uma significativa retração da atividade econômica, porém muito menor do que se esperava no início da pandemia. As políticas anticíclicas implementadas pelo governo exerceram papel fundamental nesse resultado”, afirmam as pesquisadoras Silvia Matos e Luana Miranda, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Nos cálculos da entidade, a massa ampliada de rendimentos - que inclui a renda do trabalho, benefícios de proteção social e previdenciários - subiu 3,3% no ano passado. Na ausência das políticas de compensação de renda, porém, a renda teria recuado 5,7%. O crescimento econômico do quarto trimestre, no entanto, já teria sido afetado pela menor dose de estímulos no período.

Para Silvia e Luana, o PIB cresceu 2,5% de outubro a dezembro frente aos três meses anteriores. Já a massa ampliada de rendimentos teria diminuído cerca de 4% no quarto trimestre, ante igual intervalo de 2019.

“A retração nos rendimentos do trabalho, em conjunto com a redução do auxílio emergencial, a antecipação do 13º salário de aposentados e pensionistas do INSS e a inflação mais alta, é responsável pelo resultado”, comentam as economistas.

Com a menor renda disponível, é natural que o PIB dos serviços - que, nas Contas Nacionais, engloba também a atividade do comércio - tenha desacelerado entre o terceiro e o quarto trimestres, reduzindo sua alta de 6,3% para 2,3% no período, estimam Silvia e Luana. Do lado da demanda, o consumo das famílias foi o mais afetado, calculam elas, mas ainda ficou em terreno positivo, ao avançar 2,8% nos últimos três meses de 2020. Entre julho e setembro, a expansão do consumo foi de 7,6%.

Segundo Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, apesar da esperada desaceleração do PIB no quarto trimestre, a economia seguiu em “recuperação relativamente boa”. Em seus cálculos, a alta foi de 2,9% no período. Rostagno observa que houve uma inversão em relação ao trimestre anterior, com os serviços avançando mais do que a indústria - 2,6% contra 2% em suas projeções para outubro a dezembro de 2020.

Isso ocorreu porque a retomada dos serviços começou depois. “Com estímulos, a indústria se recuperou mais rapidamente, enquanto os serviços ainda têm espaço grande para avançar. Eles acabaram se beneficiando um pouco mais do processo de reabertura da economia no quarto trimestre, mas não vão atingir o nível pré-crise que a indústria já alcançou”, pondera.

Do lado da demanda, chamam atenção entre as projeções para o quarto trimestre as altas de dois dígitos previstas em investimentos e importações. De acordo com a mediana de 20 analistas, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das Contas Nacionais do que se investe máquinas e equipamentos, construção civil e inovação) subiu 12,4% nos três meses terminados em dezembro, enquanto as importações saltaram 25,3%.

Ambos os dados foram inflados pela importação de US$ 4,8 bilhões em plataformas de petróleo em dezembro. Esses bens, no entanto, já estavam em território nacional, mas passaram a ser contabilizados como parte do estoque de capital do país após uma mudança no Repetro, regime que dá tratamento aduaneiro e tributário diferenciado ao setor de óleo e gás.

O Itaú Unibanco projeta alta de 19% para a FBCF na passagem do terceiro para o quarto trimestre. Excluindo as plataformas, o avanço seria de 11%, calcula o economista Luka Barbosa. Dois fatores explicam o bom número, segundo ele. Um é a expansão do mercado imobiliário. “É reflexo tanto dos juros baixos quanto da própria pandemia, que levou as pessoas a investirem mais em imóveis.”

Além disso, Barbosa aponta que existe uma correlação significativa entre a alta de preços de commodities e a FBCF no Brasil. “O país tem empresas relevantes nesse setor, um dos poucos em que o Brasil é, de fato, competitivo a nível global. Se o negócio fica mais rentável, as empresas investem mais”, diz.

Para as importações, o Itaú estima aumento de quase 33% no quarto trimestre, ante o terceiro. “Tem o efeito das plataformas, mas tem também um pouco de recuperação econômica, além de o crescimento ser sobre uma base bem baixa”, lembra Barbosa.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Anaïs Fernandes — De São Paulo, 01/03/2021