Na última semana, o volume de internações de pacientes acometidos pela covid-19 em hospitais privados de São Paulo disparou. Na sexta-feira, havia 171 pacientes com coronavírus internados no Sírio-Libanês, o maior volume já registrado pelo hospital em toda pandemia. No Albert Einstein, a taxa de ocupação geral (covid e outras enfermidades) bateu em 104%. Especialistas do setor acreditam que se esse ritmo for mantido há risco de colapso na rede privada

“Se essa média for mantida, sem a adoção de medidas de maior isolamento, há possibilidade de colapso em três ou quatro semanas”, disse Francisco Balestrin, presidente do SindHosp, sindicato dos hospitais do Estado de São Paulo. “Lamento dizer, mas se nada for feito, existe o risco de colapso, sim”, complementou Fernando Torelly, superintendente corporativo do HCor.

Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, concorda com a opinião dos seus colegas e pondera acreditar que o governo do Estado tende a adotar medidas mais restritivas de lockdown para conter a disseminação do vírus.

Levantamento do SindHosp com 80 hospitais de São Paulo mostra que metade deles está com taxa de ocupação entre 91% e 100%. Em grandes hospitais como Sírio-Libanês, BP - Beneficência Portuguesa, HCor e Alemão Oswaldo Cruz, a ocupação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para covid ultrapassa os 90%.

Com a lotação das UTIs, os hospitais estão alocando parte dos leitos, usados para atendimento de outras enfermidades, a pacientes com covid-19. Na semana passada, o Albert Einstein, HCor e Sírio-Libanês abriram 24 leitos, cada, nesse esquema.

No entanto, um dos efeitos colaterais dessa medida é a redução de leitos para cirurgias e procedimentos eletivos de menor urgência. hospital está fazendo um gerenciamento dos agendamentos e recomendando que casos não urgentes sejam adiados. O Sírio-Libanês está acompanhando de forma mais rigorosa os agendamentos e recomendando que casos não urgentes sejam adiados. “Mas se surgir um caso de apendicite, por exemplo, vamos atender com certeza”, disse Felipe Duarte Silva, gerente de práticas médicas do Hospital Sírio-Libanês.

“A partir dessa semana, vamos analisar se remanejamos os procedimentos eletivos. Vai depender de como se comporta a propagação dos casos. Se chegarmos à situação do Rio Grande do Sul vai ser preciso”, disse Fernando Torelly, superintendente corpora do HCor.

No Moinhos de Vento, principal hospital do Rio Grande do Sul, todos os procedimentos eletivos foram cancelados logo após o carnaval, quando a curva de internações começou a subir, e ainda assim faltam leitos. “Nossa taxa de ocupação está em 110% mesmo com abertura de dez novas UTIs. Vivemos um tsunami”, disse Mohamed Parrini, CEO do Moinhos de Vento. Ele explica que o grande problema é contratar médicos e fisioterapeutas para UTI. “Os profissionais estão esgotados, outros estão afastados. Tivemos casos de profissionais contaminados, após tomar a primeira dose da vacina”, complementou Parrini.

O atual cenário é consequência de uma combinação de aglomeração em festas de Ano Novo, férias de verão, Carnaval e relaxamento com a chegada da vacina, cuja imunização não abarcou 3% da população brasileira. “Além das festas, mais recentemente houve um empoderamento com o surgimento da vacina. As pessoas relaxaram. Além disso, há uma desinformação oficial sobre a pandemia e a vacinação”, disse Balestrin.

A situação dos hospitais privados da capital paulista é bem pior do que a rede pública, cuja ocupação está na casa dos 68%. Uma das possíveis razões apontadas é que boa parte da população da periferia já foi contaminada com a necessidade de voltar ao trabalho presencial. As classes mais abastadas estavam em “home office”, mas se expuseram recentemente em festas e comemorações.

Outra região que também está sendo duramente afetada pela pandemia é Brasília. A unidade do Sírio-Libanês na região viu a taxa de ocupação de leitos aumentar de 72% para 80% entre quarta e sexta-feira da semana passada.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Beth Koike — De São Paulo, 01/03/2021