Os juros dos títulos soberanos voltaram a subir de maneira consistente ontem e dispararam um forte movimento de aversão ao risco nos mercados. As ações em Wall Street terminaram em queda firme e, entre outros desdobramentos, os investidores se desfizeram de moedas de mercados emergentes, que registraram um dia de desvalorização generalizada.

O Dow Jones terminou o pregão em queda de 1,75%, aos 31.402,01 pontos, enquanto o S&P 500 recuou 2,45%, a 3.829,34 pontos. O índice eletrônico Nasdaq - mais sensível às variações nos rendimentos dos títulos - despencou 3,52%, a 13.119,43 pontos. Na Europa, o Stoxx 600 caiu 0,36%.

À primeira vista, a alta nos rendimentos dos Treasuries é encarada por grande parte dos agentes financeiros como um bom sinal para o crescimento econômico e para as perspectivas futuras dos lucros das empresas nos Estados Unidos.

“Atribuímos o movimento recente das taxas às melhorias relacionadas à covid-19, um foco na aprovação do pacote de estímulos fiscais nos EUA e um consumidor resiliente. O mercado de juros está finalmente mudando o foco dos riscos de baixa para um debate em torno dos riscos de alta”, disse Mark Cabana, estrategista de juros do Bank of America (BofA).

Mas é a rapidez com que os rendimentos vêm avançando que limita o apetite dos investidores por determinados segmentos do mercado, em especial os que já apresentavam preços elevados e grandes expectativas de lucros futuros, como o setor das ações de tecnologia. Ontem, o juro da T-note terminou o pregão aos 1,525%, de 1,382% do fechamento da véspera. O nível próximo de 1,5% é considerado chave por boa parte dos analistas de mercado, já que é próximo do “dividend yield” do S&P 500 - a taxa média de rendimentos a partir da distribuição de dividendos do índice - hoje de cerca 1,51%. Isso, na prática, quer dizer que começa a haver alternativas às ações, segundo analistas.

E a previsão, segundo Cabana, é que o movimento de alta nos juros dos títulos do Tesouro continue ao longo do ano. De acordo com ele, o rendimento da T-note de 10 anos deve terminar o ano em 1,75%.

“Antecipamos um ponto de inflexão de alta em meados do ano, conforme o crescimento da economia se materializa e o Fed provavelmente comunicará uma postura menos acomodatícia na compra de ativos, o que deve agravar a movimentação da taxa”, afirmou. Ele alerta ainda que os riscos estão inclinados para cima, o que significa que o aumento das taxas pode ocorrer mais cedo do que o esperado, e que os juros podem terminar o ano ainda mais altos do que na previsão atual do banco.

A expectativa dos agentes financeiros de que os rendimentos dos títulos devem continuar subindo no curto prazo ficou refletida no leilão promovido pelo Tesouro dos Estados Unidos ontem.

O leilão de US$ 62 bilhões em notas de 7 anos do Tesouro teve demanda fraca e saiu com yield máximo de 1,195%, no pior resultado desde fevereiro de 2009. A demanda do leilão foi suficiente para cobrir a oferta em apenas 2,04 vezes, o nível mais baixo da história.

A preocupação com a trajetória dos juros também atravessou o Atlântico, fazendo o economista-chefe do Banco Central Europeu, Philip Lane, afirmar que “o BCE está acompanhando de perto a evolução das taxas de juros nominais de longo prazo”, ecoando fala de Christine Lagarde na segunda.

Entre outros desdobramentos que o movimento dos bônus provocou nos mercados globais, a alta nas taxas fez com que investidores reavaliassem suas apostas em moedas emergentes. “Essa liquidação de títulos, juntamente com o aumento das taxas de juros reais, tem o potencial de prejudicar o sentimento global, que é um dos principais impulsionadores do mercado de câmbio emergente”, segundo relatório da Nordea.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Gabriel Roca, André Mizutani e Rafael Vazquez — De São Paulo, 26/02/2021