No sentido contemporâneo, o adjetivo ‘sustentável’ despontou com o avanço da consciência social sobre dramas ambientais, fortemente impulsionado pelas articulações e mobilizações da ONU para a pioneira Conferência de Estocolmo, em 1972. Nos anos seguintes, surgiram livros com a expressão ‘sociedade sustentável’ em seus títulos.

Mas foi para qualificar o ‘desenvolvimento’ que, nos anos 1980, o adjetivo foi se consagrando em documentos internacionais que precederam sua apoteose, com a ‘Rio-92’. Especialmente o relatório Nosso Futuro Comum, liderado pela médica norueguesa Gro Harlem Brundtland, que, em julho de 2011, iria escapar, por pouco, do célebre massacre terrorista na ilha de Utoya.

Talvez a sustentabilidade permaneça um tema dos mais relevantes para inúmeras ciências que jamais se unificarão

Já a legitimação do consequente substantivo ‘sustentabilidade’ parece ter sido, em grande parte, simultânea. Porém, ainda nos anos 1990, ambos estiveram longe de alcançar a quase unanimidade atual. Não se deve esquecer, por exemplo, do cancelamento proposto por Bill McKibben, um dos mais lídimos representantes do movimento ambientalista dos Estados Unidos. Em artigo de opinião no New York Times de 10 de abril de 1996, chegou a declarar absoluta certeza de que os dois termos não emplacariam.

Passado um quarto de século, está bem nítido o quanto McKibben errou. Mas só no atacado, pois, no varejo, pode até ter acertado em cheio. Demorou, mas o segmento empresarial, finalmente, conseguiu realizar a profecia do grande ambientalista com a proeza de consagrar o acrônimo ‘ESG’ para se referir à necessária boa governança corporativa dos estragos ambientais e sociais de seus negócios.

O contraste não poderia ser maior na comparação com o ocorrido no mundo científico. Justamente, quando Bill McKibben publicava sua pérola nas páginas do New York Times, muitas centenas de pesquisadores respondiam à convocação do National Research Council, com o propósito de articular todos os esforços científicos, tecnológicos e sociais direcionados à sustentabilidade. Durante quatro anos (1996-1999), pipocaram 475 trabalhos, sintetizados no imenso relatório Our Common Journey: A Transition Toward Sustainability, de 1999. Está no último capítulo, a certidão de nascimento do que, desde então, passou a ser chamado de ‘Ciência da Sustentabilidade’ (Sustainability Science).

Não há melhor maneira de avaliar o caminho por ela percorrido do que explorar um website coincidentemente montado durante a ascensão da moda ‘ESG’: www.sustainabilityscience.org/. Ótima iniciativa do cientista que foi o grande condutor de todos esses esforços, desde o relatório de 1999: o ecólogo William C. Clark, professor da John F. Kennedy School of Government, de Harvard, e editor de seção do periódico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) dedicada à Ciência da Sustentabilidade.

No site, estão organizadas as informações essenciais sobre os dezesseis programas de pesquisas considerados os grandes componentes da nova ciência. Alguns sobre problemas já bem conhecidos, voltados à resiliência ecossistêmica, aos serviços ambientais ou à economia circular. Outros, nem tanto, como uma meia dúzia de linhas de pesquisa mais diretamente voltadas a diversos sistemas complexos.

O problema é que tal lista dos dezesseis pilares da Ciência da Sustentabilidade transmite a sensação de se estar diante de uma estranha colcha de retalhos, mesmo que possa não ser um saco de gatos. Há, com certeza, proximidade e convergência entre alguns deles, mas chocante ausência de alguma nova teoria capaz de integrar e consolidar um corpo de conhecimentos, que venha a realmente constituir uma nova ciência, não apenas uma ampla área de pesquisas mais ou menos aparentadas.

Como o que há de mais recorrente nos dezesseis programas catalogados é o desafio de se entender intrigantes redes adaptativas, surge a esperança de que a saída possa estar na Teoria (Geral) dos Sistemas, ou, melhor ainda, em seu mais recente e promissor desdobramento, a Teoria da Complexidade. Ocorre, contudo, que qualquer razoável revisão da produção acadêmica sobre estas duas teorias desemboca numa estridente Torre de Babel. Pior: com variantes que até parecem se distanciar.

Muitos acompanharão William C. Clark na suposição de mera questão de tempo. Por mais lenta que seja, a tendência vitoriosa será alguma fusão dos programas de pesquisa por ele listados. Todavia, também é bem possível - e hoje até parece muito mais provável - que a sustentabilidade permaneça um tema dos mais relevantes para inúmeras ciências que jamais se unificarão. Na direção oposta ao sonho de “consiliência”, defendido com tanto entusiasmo pelo grande biólogo Edward O. Wilson.

Tudo isso só mostra o quanto é imprescindível incentivar “a produção de conhecimentos voltados a favorecer formas inovadoras de tratamento do tema ambiental e que estejam sintonizadas com os principais avanços realizados pela comunidade científica nacional e internacional”, missão do novíssimo ‘Cebrap-Sustentabilidade’, bem-vindo núcleo prometido para o início de abril: cebrap.org.br/nucleos/cebrap-sustentabilidade/

José Eli da Veiga é professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP: www.zeeli.pro.br


Fonte: Valor Econômico - Opinião, 26/02/2021