O fim de medidas emergenciais adotadas durante a pandemia já tem impactos sobre o mercado de crédito neste início de ano. Em janeiro, as concessões de crédito livre, por exemplo, caíram 27,7% em relação a dezembro, para R$ 289,1 bilhões. Houve recuo tanto nos empréstimos para pessoas físicas (20,4%) quanto para pessoas jurídicas (35,5%). Os números foram divulgados ontem pelo Banco Central (BC).

“É uma piora além do padrão sazonal”, disse o chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha. De acordo com ele, dois fatores principais explicam esse recuo maior do que o normalmente observado para o mês. O primeiro são os “programas descontinuados”. O segundo é a volta da cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em operações de crédito - em 2020, a alíquota havia sido zerada.

Os resultados de janeiro não significam, entretanto, uma projeção para o desempenho dos empréstimos no ano ou um indicador de “apetite” por crédito, de acordo com o chefe do departamento de estatísticas do BC.

Com o objetivo de combater os efeitos da pandemia, o BC adotou uma série de medidas em 2020. Houve, por exemplo, a criação do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) e do Programa Emergencial de Acesso ao Crédito, que chegaram ao fim. No começo deste ano, porém, o próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse ao menos duas vezes que a autoridade considerava a possibilidade de implantar linhas emergenciais novamente.

Para 2021, a autoridade monetária projeta crescimento de 7,8% do estoque de empréstimos, uma desaceleração em relação à alta de 15,5% do ano passado. Depois de crescer 23% em 2020, influenciado justamente pelas linhas emergenciais, o crédito com recursos direcionados para empresas deve diminuir 5,3%, na estimativa do BC.

A tendência é que o “término dos programas emergenciais de crédito e do diferimento no pagamento dos financiamentos concedidos pelo BNDES” expliquem o recuo, segundo a autoridade afirmou no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de dezembro.

Nos cálculos de Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, as concessões para pessoas jurídicas com outros recursos direcionados caíram 49,2% entre dezembro e janeiro, descontados fatores sazonais. Foi nessa categoria que o BC incluiu o Pronampe, por exemplo. “Isso [queda] aconteceu principalmente por causa da saída desses programas”, afirma.

Para Sergio Vale, da MB Associados, “as condições de crédito devem ficar mais apertadas com a saída dos programas de governo e a retomada lenta da economia”. Ele destaca que “alguns sinais preocupantes começam a aparecer”, como o aumento do spread.

Nicola Tingas, da Acrefi, diz que a queda das concessões em janeiro pode fazer parte de um “processo mais amplo”, em meio ao avanço lento tanto da vacinação e da recuperação da atividade.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Estevão Taiar — De São Paulo, 26/02/2021