Em um sinal de que o investidor brasileiro tem disposição para experimentar aplicações mais arrojadas do que aquelas vinculadas ao CDI, um fundo multiestratégia do Itaú lançado há menos de dois meses, com aplicações a partir de R$ 1, já captou quase R$ 2 bilhões. Outro termômetro é que, três anos depois de estender a oferta de fundos de gestoras independentes do private banking para o varejo, essas carteiras reuniam patrimônio de R$ 55 bilhões. Mais: no private, a parcela em títulos pós-fixados atrelados ao CDI, que era de 58% em 2015, atualmente representa 35%, fatia que tende a cair para algo entre 10% e 20%.
Esses dados mostram que, em geral, é a pessoa física que tem liderado o movimento de diversificação, enquanto no mundo institucional os fundos de pensão estão um passo atrás. Para Carlos Constantini, principal executivo da área de gestão de riquezas e serviços do Itaú, os grandes investidores ainda estão com a “sensação térmica” dos ganhos de capital que obtiveram no ano passado com Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), atreladas à inflação. Conseguiram bater a meta atuarial sem ir para a bolsa. A partir de agora, com a Selic na mínima de 4,25% ao ano, a história muda de figura.
“Acho que o número mágico é a meta atuarial de IPCA mais 6%, é um nível psicológico para o investidor institucional e o mercado se reposicionar e olhar para as suas alocações”, disse em encontro com a imprensa. “Ainda que a Selic volte a ser 6%, uma taxa de dois dígitos está descartada.” Vale ressaltar que a área de gestão do banco casa não trabalha com cenário de aumento de juro.
O novo portfólio oferecido no varejo replica a carteira de investimento recomendada pelo banco mensalmente e é mais uma das linhas de defesa do Itaú da concorrência das plataformas de investimentos independentes. O perfil do fundo é “arrojado”, comportando mais risco com aplicações em renda variável, multimercados e outros ativos no pacote. Batizado de “Carteira Itaú de Investimentos”, foi lançado em 29 de janeiro, mas começou a captar antes disso, logo no início do ano.
De acordo com Constantini, é a primeira vez que um produto que não é atrelado ao CDI capta o primeiro bilhão no intervalo de um mês. O fundo tem taxa de administração de 0,9% ao ano, sem cobrança de performance, e tem rodado com um retorno médio equivalente a 180% do CDI. Comparando-se ao que se cobra num fundo dedicado ao private, o custo é só um pouco mais alto e oferece um tipo de diversificação antes restrito ao grupo dos mais ricos.
Segundo Claudio Sanches, diretor de produtos de investimento e previdência, a procura por diversificação aumentou muito com o ciclo de corte da Selic. “Ano passado, com aceleração da redução da taxa de juros, tivemos um cliente com demandas totalmente diferentes do que tínhamos historicamente.” Ele disse que a intenção é reduzir cada vez mais o valor de entrada dos fundos, incluindo os de gestores externos, para aplicações a partir de R$ 1 mil.
Rubens Henriques, executivo-chefe da Itaú Asset Management, citou que 90% do negócio ainda está na renda fixa. “Tem muito fluxo ainda, não só para bolsa, mas para outros produtos em geral.”
A gestora de recursos encerrou 2019 com R$ 770 bilhões. Henriques disse que 2019 foi um ano de captação recorde, com R$ 34 bilhões, com destaque para produtos de maior valor agregado, como multimercados, ações e carteiras balanceadas, atraindo mais de R$ 20 bilhões.
Quando assumiu o posto em 2019, vindo de 14 anos da área de fundos de fundos, Henriques recebeu a missão de criar pequenas gestoras de recursos dentro do ecossistema da asset, com liberdade para montar as respectivas estratégias à moda das casas independentes. Nesse período, ele conta que conseguiu atrair mais de 20 pessoas entre analistas e gestores de casas como Verde, SPX, Gávea e JGP. “Com a alta demanda por produtos de maior valor agregado, conseguimos escala a ponto de impactar o resultado do banco com receitas de serviços.”
Ao mesmo tempo em que constrói pequenas assets dentro de casa, o Itaú tem aprofundado a oferta de fundos de terceiros na sua plataforma aberta. Já são mais de R$ 140 bilhões em fundos de gestores externos, com uma captação que chegou a R$ 55 bilhões no ano passado, sendo R$ 49 bilhões localmente e R$ 6 bilhões em produtos fora do Brasil, disse Bruno Ribeiro de Castro, responsável pela área de fundos de fundos e produtos de arquitetura aberta. Hoje, são 45 nomes disponíveis no varejo e no private banking. Além disso, a asset tem 25 produtos multigestores.
Fonte: Valor-Finanças, por Adriana Cotias e Isabel Filgueiras -São Paulo, 21/02/2020

