Mesmo com a recuperação mais firme e mais disseminada da atividade econômica, a inflação deverá seguir tranquila neste ano. Com a grande capacidade ociosa e o legado benigno dos baixos índices de preços do ano passado, os serviços e as medidas de núcleos, que buscam reduzir a influência dos itens mais voláteis, mostram um cenário inflacionário benigno.

Nesse ambiente, ganha força a aposta de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará no intervalo de 3,5% a 4% neste ano,  confortavelmente abaixo da meta de 4,5%, a despeito do crescimento mais forte em 2018. Também ajudam as expectativas de inflação bem ancoradas, assim como a avaliação de que o câmbio se manterá relativamente tranquilo ao longo do ano, como observa o economista Leandro Negrão, do Bradesco.

O crescimento expressivo do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) em dezembro, de 1,4% sobre novembro, não muda o panorama inflacionário vislumbrado pelo banco, segundo Negrão. "O cenário de inflação segue bem comportado e até com viés de baixa", diz ele, que projeta um IPCA de 3,9% em 2018 e de 4,25% em 2019.

Na semana passada, o Santander reduziu a projeção para o IPCA deste ano de 3,8% para 3,5%. Um dos motivos foi o resultado bem abaixo das estimativas do indicador em janeiro, afirma a economista Mirella Hirakawa, do Santander. O indicador subiu 0,29%, menos que o piso das projeções dos analistas consultadas pelo Valor Data, de 0,33%.

Os serviços também evidenciaram uma inflação domada - esses preços aumentaram apenas 0,16% no mês passado, bem abaixo do 0,59% de dezembro. Com peso de cerca de 35% no IPCA, o grupo inclui itens como empregado doméstico, mensalidades escolares, médico, conserto de automóvel e passagens aéreas. Para Mirella, os serviços fecharão este ano em 3%, uma desaceleração expressiva em relação aos 4,5% de 2017 e aos 6,5% de 2016.

Ela destaca também a expectativa de um aumento mais modesto para os preços do grupo educação, o que contribui para moderar a variação dos serviços neste ano. Para Mirella, o item cursos regulares subirá 3,5% em 2018, metade da variação registrada em 2017. Essa inflação mais baixa de educação será captada pelo IPCA de fevereiro.

Negrão observa que, além do efeito da baixa inflação passada, a situação da economia reduz o poder das escolas de reajustar preços. Ainda há muita folga de recursos na economia, depois de o PIB ter encolhido 3,5% em 2015 e outros 3,5% em 2016. Em 2017, o crescimento ficou na casa de 1%, segundo previsões dos analistas.

Mesmo com a retomada em curso, o cenário para a inflação segue "muito benigno", diz Negrão. Para ele, esse ambiente é garantido por fatores como a inflação recente em níveis baixos, o reajuste moderado do salário mínimo e as expectativas ancoradas, além da elevada ociosidade. Negrão conta ainda com um câmbio tranquilo, fechando em R$ 3,20 neste ano e em R$ 3,30 no ano que vem. Na visão do Bradesco, o PIB crescerá 2,8% em 2018 e 3% em 2019.

O economista do Bradesco também ressalta as perspectivas favoráveis para os serviços, citando uma medida que expurga do grupo os itens empregado doméstico e mão de obra, os quais refletem diretamente o efeito do salário mínimo. "A inflação de serviços excluindo esses dois itens deverá passar de 3,4% no final de 2017 para 2,8% em março de 2018", diz Negrão, referindo-se à média dos últimos seis meses, ajustada sazonalmente e em termos anualizados.

A chamada inflação subjacente de serviços, que exclui os grupos de turismo, serviços domésticos, cursos e comunicação, também mostra uma inflação das mais tranquilas, segundo Mirella. Essa medida é acompanhada de perto pelo Banco Central (BC), reunindo itens mais sensíveis ao ciclo econômico e à  política monetária. Depois de chegar a subir 9,4% em 2015, esses conjunto de serviços teve alta de 6,3% em 2016, de 3,7% em 2017 e caminha para fechar o ano em 2,95%, acredita a economista do Santander.

"Como existe muita ociosidade, há espaço para a economia crescer sem gerar pressões inflacionárias", resume Mirella. Ela tampouco acredita que o IBC-Br de dezembro muda o quadro para o IPCA. O Santander estimava alta de 1,3% para o indicador, muito próxima do resultado de 1,41%. O mercado esperava um número na casa de 1%. "Isso não altera o nosso cenário de inflação ainda comportada", afirma Mirella, reiterando a grande capacidade ociosa na economia.

Para o PIB, o Santander projeta uma expansão de 3,2% neste ano e também no ano que vem. Mesmo com um câmbio mais desvalorizado, de R$ 3,50 em dezembro, Mirella vê um IPCA tranquilo, de 3,5% em 2018 e de 4% em 2019. Seria necessária uma depreciação bem mais intensa para afetar os preços com mais força. O Santander acredita que o BC cortará os juros em mais 0,25 ponto percentual, derrubando a Selic para 6,5% ao ano.

Negrão e Mirella mencionam ainda a trajetória benigna do núcleo por exclusão, que desconsidera os preços administrados (como tarifas públicas) e alimentação no domicílio). Mirella estima que esse núcleo deve terminar 2018 em 2,7%, depois de atingir 5,8% em 2016 e 3,1% em 2017. Tudo isso contribui para um IPCA bastante controlado - acima dos 2,95% do ano passado, já que os alimentos deverão ter variação positiva, e não deflação  com em 2017, mas ainda assim bastante abaixo dos 4,5% da meta deste ano. O consenso do mercado aponta um IPCA de 3,81% em 2018.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci, 21/02/2018