Funcionários satisfeitos tendem a influenciar positivamente os resultados da empresa, funcionários insatisfeitos fazem o contrário. É fato. Mas um estudo obtido com exclusividade pelo Valor mostra que o impacto de destruição dos infelizes é muito maior que o poder de criação de valor dos contentes.

Enquanto a satisfação dos empregados tem que ser uma preocupação constante em uma boa gestão, mais importante ainda é evitar um ambiente de trabalho "tóxico". Isso porque a destruição de valor das empresas mais mal avaliadas pelos funcionários é mais significativa do que o ganho das mais bem avaliadas.

As conclusões são de um estudo feito por Alexandre Di Miceli, fundador da consultoria Direzione e professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), a partir da análise das avaliações feitas por funcionários e ex-funcionários das maiores companhias do país publicadas na plataforma Love Mondays, especializada em recursos humanos.

A amostra foi composta por pouco mais de mil empresas que fizeram parte do Valor 1000nos últimos cinco anos, ou seja, as maiores companhias do país em termos de receita líquida. As empresas foram divididas em quatro grupos, conforme a nota média que receberam dentro de uma escala de um a cinco. A nota engloba quatro dimensões do bem estar dos empregados: cultura, remuneração e benefícios, oportunidades de carreira e qualidade de vida.

A partir daí, foram avaliados alguns indicadores financeiros, como retorno sobre patrimônio líquido (ROE, em inglês), retorno sobre ativos (ROA) e margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). O levantamento mostra que quanto maior a satisfação média reportada pelos empregados, melhor estatisticamente é o desempenho das empresas em todos os indicadores financeiros avaliados.

O retorno sobre o patrimônio líquido, por exemplo, é praticamente o dobro no caso das empresas mais bem avaliadas, em comparação com as que mais mal avaliadas. No primeiro grupo, o retorno é de 8,5%, enquanto no segundo é de 4,4%.

Como resultado, as companhias com as piores notas de satisfação deixaram de auferir lucro médio de R$ 47,2 milhões por ano por não fazer parte do grupo das mais bem avaliadas, segundo os cálculos de Di Miceli, feitos a partir do patrimônio líquido médio do grupo com a pior avaliação.

Em relação ao retorno sobre o ativo, o indicador é de 5,4% no pior grupo em satisfação de funcionários e de 7% no melhor grupo. Já a margem Ebitda é de 15% nas empresas mais bem avaliadas - 3,3 pontos percentuais superior à margem apresentada pelas empresas mais mal avaliadas.

O peso de uma boa avaliação e de uma má avaliação, no entanto, não é simétrico. As companhias caracterizadas pela baixa satisfação dos empregados têm mais chances de ter desempenho ruim do que aquelas que recebem as maiores avaliações têm de ter um bom desempenho. "O impacto negativo nas piores é maior que o impacto positivo nas melhores", afirma Di Miceli. "As companhias destroem valor quando não têm um bom ambiente de trabalho."

A pesquisa mostra ainda que aspectos relacionados à motivação intrínseca de funcionários, como cultura e oportunidades de carreira, têm uma relação mais forte com o desempenho financeiro das empresas do que fatores tradicionalmente enfatizados pelas áreas de recursos humanos, como remuneração e benefícios. "Os resultados do estudo apoiam uma visão mais moderna sobre motivação de funcionários, baseada na importância de uma cultura saudável e do oferecimento de oportunidades de carreira e menos na questão financeira", diz Di Miceli.

As avaliações também se traduzem em um melhor desempenho das companhias no ranking Valor 1000. Enquanto as empresas com maior satisfação geral apresentaram um crescimento médio de cerca de duas posições na lista em relação há dois anos antes, as empresas pertencentes ao grupo com pior avaliação caíram em média nove posições, considerando o mesmo período.

Entre os setores, os que concentram as companhias mais bem avaliadas são: papel e celulose, petróleo e gás, plásticos e borracha, construção e engenharia e energia elétrica. As empresas mais mal avaliadas estão concentradas em áreas de atividade como serviços ambientais, têxtil, couro e vestuário, serviços especializados, empreendimentos imobiliários e educação.

No total, foram consideradas nas pesquisas informações sobre 1031 empresas listadas no Valor 1000 no período de 2013 a 2018. Dessas companhias, foram colhidas 114 mil avaliações publicadas de forma anônima por funcionários e ex-funcionários também no período de 2013 a 2018. A maior parte dos avaliadores (75% da amostra) trabalha atualmente nas companhias.


Fonte: Valor, por Fabio Graner - de Brasília, 20/02/2019