A pandemia colocou à prova a gestão de liquidez dos gestores de fortunas no mundo todo. No Brasil, os escritórios que atendem grupos familiares abastados mostraram habilidade para fazer a travessia durante a fase mais crítica da crise em condições de igualdade com seus pares lá fora, segundo Cristiano Castro, diretor da BlackRock.
É o que deu para depreender ao participar de algumas entrevistas feitas pela gestora em parceria com a Juniper Place, para uma pesquisa global sobre o segmento de “family office” nos 25 mercados onde atua. Foram ouvidos 185 gestores de patrimônio, sendo dez deles no Brasil. O estudo não traz um recorte por país, mas na abordagem qualitativa foi possível encontrar algumas conexões, diz Castro. Nessa área, a BlackRock tem sob seu guarda-chuva cerca de US$ 50 bilhões.
“A gente viu em vários family offices, globalmente e também no Brasil, um movimento interessante, que faz parte da gestão de patrimônio. Enquanto no mercado havia papéis de renda fixa que ninguém conseguia vender, os gestores [de fortunas] estavam preparados para um evento de cauda [inesperado], já levantando certa liquidez quando passou a fase pior da crise e perceberam que os bancos centrais iriam atuar em conjunto”, diz.
Com o aumento do caixa no clube de investidores mais ricos, alguns fundos de private equity que estavam fechados aproveitaram para reabrir para captação. “A gente viu toda essa liquidez realocada para projetos ilíquidos”, diz Castro.
Se há cinco anos, o capital conseguia se remunerar com juros de dois dígitos, hoje, sob a pressão de taxas reais negativas, representantes das famílias foram sentar no board dos escritórios de fortunas, afirma Castro. “Neste momento, a cabeça do empresário com juros baixos é expandir o negócio dele e, na outra ponta, buscar investimento para remunerar melhor o dinheiro. É aí que entra o private equity, o venture capital.”
Para Sigrid Guimarães, sócia e CEO da Alocc Gestão Patrimonial, durante a pandemia ficou muito nítida a necessidade de aconselhamento das famílias. “A gente monta uma carteira à prova de bala, e tudo que pregava acabou sendo testado na crise”, diz. A lógica da construção de carteira é que não adianta correr atrás de rentabilidade se o investidor não tiver reservas financeiras suficientes para atravessar as intempéries.
O modelo de gestão da Alocc prevê um colchão de três a cinco anos do custo de vida do grupo familiar na renda fixa conservadora, mesmo que “não rendam nada”, diz Sigrid. “Uma vez que se tenha isso separado, você pode dar às alternativas voláteis o benefício do tempo para atingirem o objetivo a que se propõem.”
Com cerca de R$ 7 bilhões sob gestão, Sigrid diz que a Alocc cresceu 45% na pandemia, um ritmo acima dos 30% observados em anos anteriores. Apesar do tombo da economia em 2020, a executiva acredita que este ano será favorável a eventos de geração de riqueza e também de oportunidades para o investidor, com novas empresas chegando à bolsa.
A Taler tem uma matriz que forma um tripé: de preservação de patrimônio, renda e ganho de capital. O que muda são os pesos dos ativos de acordo com os objetivos da família e os cenários, diz Mari Emmanoulides, sócia-fundadora e CEO da gestora. Durante a pandemia, a estrutura mudou um pouco, com mais liquidez. “Ter caixa é importante para ter munição para boas aquisições quando surge alguma oportunidade”, diz. Na estratégia de ilíquidos, a gestora considera como a família gasta e se a conta atuarial vai bater para a transmissão para a próxima geração. “A única forma de ter retornos maiores é o prazo, tem que ficar muito claro para o cliente que não pode ser vendido antes.”
Em meio à corrida por retorno é crescente o risco de entrar em investimentos que não vão prosperar, diz Dany Roizman, sócio-fundador da Brainvest, que tem cerca de R$ 10 bilhões no Brasil e no exterior. “Há uma dispersão muito grande de retornos entre as mesmas classes de ativos. Em venture capital, um fundo pode multiplicar em três, quatro vezes, ou acarretar perda de 70% do capital.”
Ele alerta que há alguns segmentos com quase ou nenhuma regulamentação na Securities and Exchange Commission (SEC, CVM americana), como o imobiliário. “Quando faz um fundo, o gestor não precisa registrar, não tem obrigação de ter administrador, auditor, ele mesmo diz o quanto vale e marca o ativo”, diz Roizman. “É preocupante. As pessoas estão simplesmente indo atrás de yield, não fazendo ‘due diligence’ suficiente.”
Em paralelo à busca por ativos ilíquidos, Roizman diz haver um retorno para os hedge funds. Essa tendência foi identificada na pesquisa BlackRock/Juniper. Uma parcela de 38% dos gestores de fortunas familiares disseram ter a intenção de aumentar a exposição nessa classe, enquanto o restante pretende manter.
Para a BlackRock, esse é um forte indicador de reversão do sentimento negativo que se observou em anos recentes em relação aos hedge funds. Os gestores foram muito questionados pela performance num passado recente. A partir de 2016, em meio a juros baixos e a dificuldade de proporcionar retorno acima dos referenciais de mercado, houve uma fuga para estratégias passivas, mais baratas, lembra Castro. “Desde então, os gestores mudaram a gestão para entregar resultados mais consistentes, os custos caíram de 2% [de taxa administração] com 20% [de performance] para 1,5%/20%, ou até 10% [de performance]”, diz.
É o tipo de pressão que é cedo para dizer se os multimercados brasileiros vão sofrer. “O ano de 2020 foi de um grande choque, não dá para saber ainda se os gestores locais conseguem manter o nível atual de taxa de administração por um período prolongado ou se vão ter que também reduzir”, diz Castro. Localmente, o padrão dos multimercados brasileiros é 2% de administração com 20% de performance.
Com os fundos de índice negociados em bolsa (ETF) como grande parte de seu negócio, Castro diz que viu a demanda crescer pelo BOVA11, a carteira que replica o Ibovespa, durante a crise. O ETF da BlackRock teve no ano passado uma média diária de quase R$ 1 bilhão de giro, ante R$ 443 milhões em 2019. “Isso mostra que o brasileiro está buscando mais diversificação internacional e está atento aos custos também.”
Uma diferença da estrutura de gestão de fortunas lá fora da que se desenvolveu no Brasil é que nos Estados Unidos e na Europa o multi-family office abarca de seis a dez famílias, que compartilham a estrutura do profissional de gestão de patrimônio para reduzir custos, explica Castro. Aqui, há várias células, algumas que cuidam de fato da gestão de patrimônio, mas que no todo se assemelham aos serviços dos private bank, com centenas de clientes.
Com R$ 4,5 bilhões, de 200 famílias, a Taler cresceu 34% no ano passado e em 2021 a meta é uma expansão de 40%. Um dos objetivos é buscar a consolidação com os single family offices, diz Mari. Segundo a executiva, na média, um escritório de gestão patrimonial familiar custa de 1,5% a 2% do patrimônio líquido. “Que retorno precisa dar para pagar essa conta? É uma estrutura cara.”
Ela estima que no Brasil existam 280 famílias cuidando da própria fortuna, com patrimônio entre R$ 500 milhões e R$ 800 milhões. O último consolidado da Anbima da área de gestão de patrimônio, em junho, mostrava um patrimônio de R$ 223,4 bilhões, de 21,2 mil grupos econômicos.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Adriana Cotias — De São Paulo, 19/02/2021

