A elevada dose de estímulos concedida pelo governo levou a renda dos brasileiros a crescer em 2020, apesar do maior desemprego e da queda do nível de atividade, mas o “abismo fiscal” terá efeito contrário este ano.

Mesmo incluindo a provável volta do auxílio emergencial com valor e duração menores em suas estimativas, economistas ouvidos pelo Valor esperam que a massa de rendimentos ampliada tenha retração em 2021. O desempenho negativo da renda disponível deve moderar o ritmo da retomada do consumo, que responde por pouco mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB), avaliam especialistas.

Num cálculo que soma, além da renda dos trabalhadores, as transferências de renda do governo, como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), benefícios previdenciários e o próprio auxílio, bancos e consultorias trabalham com recuo de 3,7% a 6,6% para a massa real de rendimentos dos brasileiros na média deste ano. E, em alguns cenários, a expectativa negativa já inclui a reedição do “coronavoucher”.

É o caso do Santander, que, devido ao agravamento da pandemia, passou a considerar em seu cenário-base R$ 25 bilhões em gastos sociais neste ano, concedidos por quatro meses a 30 milhões de pessoas não atendidas pelo Bolsa Família. Mesmo assim, o economista Lucas Maynard estima que a massa de renda ampliada vai diminuir 6,6% em 2021, após expansão estimada em 3,1% no ano passado.

“A queda está contratada devido aos níveis muito altos de transferências em 2020”, afirma. Quando o auxílio foi introduzido no ano passado, o plano original era que o benefício durasse três meses, com custo total abaixo de R$ 100 bilhões aos cofres públicos. Após sucessivas extensões, esse gasto ficou em R$ 293 bilhões, ou 4% do PIB.

Sem o auxílio, a massa de renda ampliada teria caído 6,3% em 2020, aponta Maynard. O impulso dado pelas transferências mais do que compensou o recuo cíclico da renda no período, destaca o economista, que relaciona a queda prevista para a renda este ano ao “efeito rebote” da diminuição dos benefícios. “Esperamos que o mercado de trabalho reaja gradualmente do segundo semestre para frente, o que vai ajudar a renda dos trabalhadores a se recuperar.”

No primeiro trimestre, porém, o Santander prevê que a massa salarial real deve recuar R$ 66 bilhões ante o quarto trimestre de 2020, o que reforça a perspectiva de ligeira retração do PIB no começo do ano. “Um mercado de trabalho enfraquecido, a segunda onda de contaminações e o fim do auxílio emergencial elevam a pressão política por um programa temporário e focalizado de transferências governamentais para trabalhadores informais de baixa renda”, diz a equipe econômica do banco em sua última revisão de cenário.

Lucas Assis, economista da Tendências Consultoria , avalia que a volta do auxílio em valor menor é “bastante provável”. Por isso, apesar de ter excluído de seu cenário a possibilidade de uma pequena ampliação do Bolsa Família, Assis manteve a estimativa de que a massa de renda total terá redução de 3,7% este ano. “Com o enxugamento das políticas sociais compensatórias e uma perspectiva de recuperação apenas moderada do mercado de trabalho neste ano, os domicílios brasileiros devem sofrer a maior queda na renda desde a crise político-econômica de 2015 e 2016”, aponta o economista em artigo para clientes.

A LCA Consultores não considera o retorno do auxílio na projeção de recuo de 3,8% para a massa de renda ampliada em 2021, mas tem dois cenários alternativos em que a renda disponível cairia mesmo com a volta do benefício em valor menor por três meses. Assumindo como hipótese um auxílio de R$ 300, a massa ampliada diminuiria 2,2% no ano, calcula o economista Cosmo Donato. Já com o valor de R$ 200, a queda seria de 2,7%.

Mesmo levando em conta que o mercado de trabalho demora a responder às mudanças no ciclo econômico, “não é nada comum” a massa de renda crescer quando o nível de atividade cai, observa Donato, lembrando que, na estimativa da LCA, o PIB diminuiu 4,3% em 2020. “A quantidade de auxílio em 2020 foi desproporcional”, afirma o economista, para quem a saída dos estímulos impõe ritmo mais lento para a retomada do consumo das famílias neste ano.

Após retração esperada de 4,5% no ano passado, a LCA estima que o consumo vai crescer 3% em 2021, um pouco menos que a alta prevista para o PIB, de 3,2%. “Já houve uma grande contração das vendas no varejo em dezembro. Não é possível atribuir toda a queda a esse fator, mas a perspectiva de fim do auxílio teve uma influência bastante relevante”, afirma Donato.

Para Tiago Tristão, economista da Genial Investimentos, o uso da poupança “precaucional” formada durante a pandemia e a maior geração de empregos vão sustentar o consumo, que deve crescer 4,5% em 2021. Ele pondera, no entanto, que mesmo com essa alta, a demanda das famílias não vai recuperar o nível pré-pandemia. Já a massa de renda ampliada deve recuar entre 4% e 4,5% em 2021, mesmo considerando que a renda proveniente do trabalho terá crescimento, estima Tristão.

“O governo transferiu R$ 290 bilhões ano passado. Foi o maior programa de transferência de renda da história, que equivaleu a nove Bolsas Família a preços de hoje. Superar esse efeito na massa de rendimentos vai ser difícil”, afirma o economista, para quem, o auxílio, se voltar este ano, será muito menor do que em 2020.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins — De São Paulo, 19/02/2021