O desejo de um mundo sem lixo pode parecer utópico, mas existem empresas empenhadas em tornar essa ideia o mais real possível. A jornada não é curta. O mundo ainda está no caminho de sair de uma economia linear (produz, compra e descarta) para uma economia circular, na qual o que seria um passivo ambiental, o lixo, ganha valor e é transformado em novos produtos, garantindo um novo ciclo econômico para o produto.

“O seu lixo é a matéria prima do seu, do meu produto”, resume a diretora da GS1 Brasil, Virginia Vaamonde. Rede sem fins lucrativos e presente em 150 países, a GS1 tem entre seus associados 31% do PIB e 18% dos empregos formais, e tem percebido o crescimento do interesse pelo tema, ainda que forma lenta.

Há uma mudança cultural a ser implementada, acredita a diretora de sustentabilidade da Coca-Cola, Andrea Mota. Mas a boa notícia, diz, é que grupos de consumidores começam a pressionar as empresas por mudanças, transformando tendências. Preço ainda é um atributo importante entre consumidores brasileiros, mas já existe a percepção da importância da sustentabilidade e da redução de desperdício. “Caminhos para o ‘turning point’ e as marcas precisam estar prontas para essa mudança.”

A diretora da GS1 lembra que o conceito de economia circular exige repensar produtos desde o design, passando pelo modelo de negócio, processos e a conexão com stakeholders, fazendo com o que seria lixo se torne matéria prima para outro produto. Exemplos estão crescendo no mercado e as indústrias são elo importante no desenvolvimento.

O objetivo, explica Ronia Oisiovici, diretora de sustentabilidade da Solvay, empresa do grupo Rhodia, é otimizar o que for finito. Hoje mais de 50% dos produtos da companhia estão em linha com essa meta, e o compromisso é chegar a 65% até 2030. Mas para ter resultados reais, é preciso medir, ter indicadores quantitativos, acredita Daniela Manique, também diretora da Solvay. Em parceria com a Fundação Ellen MacArthur, a empresa lançou mão da ferramenta Circulytics, um analytics que auxilia no processo de transição e mede o grau de circularidade das ações das companhias. Com isso, pretendem saltar de 7% para 15% na venda de produtos a partir de recursos renováveis ou reciclados até 2030.

A empresa que investe em tecnologias mais complexas em tintas com tempo de vida mais longos e tecidos de alta qualidade e recicláveis, também foi impelida a trazer soluções simples, como a sugerida por seus parceiros: embalar os produtos em caixas de papelão sem estampa da fabricante, de forma a permitir que compradores e sua cadeia possam utilizá-las para embalar seus produtos, economizando e reduzindo desperdício.

Pensamento semelhante foi desenvolvido na Coca-Cola, conta Andrea Mota. Se as latinhas de alumínio já atingiram um nível bastante alto de coleta e transformação, as garrafas PET precisavam passar por processo semelhante. “Buscamos uma forma de interferir no processo e recolher e transformar garrafas”, explica. Investiram em uma empresa sem fins lucrativos, a SustentaPET, que recolhe embalagens e as transforma em novas garrafas. Hoje todas as garrafas de água Crystal de 500 ml são produzidas a partir de garrafas usadas. “São 700 milhões de novas garrafas que deixam de ir ao mercado por ano”, comemora. A meta para 2030 é ter 100% das garrafas recicladas.

A empresa também quebrou outro paradigma no caminho da economia circular com o reforço no conceito da garrafa retornável, o que era bastante comum nas embalagens de refrigerante em vidro. Há uma nova linha de garrafa plástica retornável, chamada de garrafa universal, que passa a servir para a aquisição de qualquer refrigerante da marca, sem um modelo de garrafa para cada bebida.

Empresas que investem em novos produtos já pensando na economia circular muitas vezes se surpreendem com o resultado. A Braskem viu um de seus produtos ser, literalmente, mandado para o espaço. O polietileno resultante da linha Eva I’m green, elaborada a partir de cana de açúcar, e o bio-Meg, produzido a partir do açúcar, chamaram a atenção da empresa americana Made in Space, que, em parceria com a Nasa, a agência espacial dos EUA, levou o polietileno (PE) I'm green TM bio-based ao espaço para fabricação de peças em impressora 3D em gravidade zero. Imprimem a peça que poderá ser reciclada após o uso e transformada em nova peça. Para alcançar a meta de neutralidade de carbono, a empresa trabalha em três frentes: redução das emissões com foco na eficiência energética e maior uso de energia renovável; compensação de emissões e captura de carbono para uso como matéria-prima.

O uso de energia renovável é fator importante nesse processo, e o Brasil poderia estar muito mais avançado, explica Ronia, da Solvay. O país tem energia renovável à disposição e outras vantagens que poderiam o colocar a frente de muitos outros concorrentes.

 

Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Carlos Raices — Para o Valor, de São Paulo, 18/02/2021