Na melhor das hipóteses, 2015 será igual ao ano passado em termos de vendas e lançamentos imobiliários, conforme as projeções de entidades do setor. Mas o mercado ainda alimenta esperança de uma reviravolta a partir do segundo semestre.
Mesmo que 2014 tenha sido um período afetado por eventos atípicos, como Copa do Mundo e eleições majoritárias, o cenário atual não estimula nenhuma projeção de melhora nas vendas em relação aos 12 meses anteriores. "Não há nada que possa indicar que até julho se retome o crescimento do mercado. A desconfiança em relação às políticas econômicas ainda é muito forte. Essa ideia é reforçada pela sensação de agravamento da crise e de aumento dainflação", afirma José Augusto Viana Neto, presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (CreciSP).
Com inflação em alta, atividade em baixa, perspectiva de piora no nível de emprego e temor com endividamento, a demanda por imóveis tende a se retrair ainda mais neste ano. "O panorama está sendo impactado pela situação geral, com perspectiva de recessão, que fatalmente vai chegar a desemprego. Consequentemente o otimismo com compra de imóvel vai ficar num viés de baixa", considera Thales Campelo, diretortécnicoda incorporadora catarinense Brasc. Segundo o executivo, o mercado sente a retração especialmente na faixa entre R$ 300 mil até R$ 7 00 mil, no chamado "middleMarket"
"A gente vai agora entender como o mercado vai operar. Se as vendas se mantiverem no mesmo patamar de 2014, estamos tentando entender nessa velocidade de venda o que acontece com os estoques. E a velocidade de lançamento pode aumentar ainda mais oestoque se não for a correta", avalia Claudio Bernardes, presidente do Sindicato da Habitação em São Paulo (SecoviSP).
O cenário adverso deve levar as incorporadoras a puxar o freiodos lançamentos neste ano. "Fizemos um levantamento com nossos associados e as empresas estão imaginando um volume igual oumenor que no ano passado", afirma Renato Ventura, diretorexecutivoda Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc), que reúne as principais companhias do setor. De acordo com o balanço, 57 % das associadas preveem vendas em 2015 nos patamares do ano passado, enquanto 38% acreditam na piora do cenário.Em relação aos lançamentos, 57 % das empresas projetam queda para 2015. Segundo o dirigente, as companhias veem o ritmo de lançamentos de 2014 como o máximo para a velocidade capaz de equilibrar os estoques, que, de acordo com o SecoviSP, alcançaram na capital paulista o maior nível em dez anos.
Na incorporadora paulistana Esser, o número de lançamentos neste ano deve cair, no mínimo, pela metade. "A projeção para 2015 é abaixar a mesa de estoques e tentar fortalecer nos lançamentos. A gente imagina fazer um lançamento a cada dois ou três meses, o que dá quatro ou cinco no ano", afirma Fábio Sousa, diretor comercial. No ano passado, a empresa colocou no mercado dez novos empreendimentos. Para Sousa, "este é um ano de compra". O executivo vê oportunidades para investidores de obter descontos "principalmente nosimóveis que estão em obras ou que já foram entregues".
Além da deterioração das condições macroeconômicas, o mercado enfrenta outro obstáculo, com potencial de desacelerar mais a demanda: a alta dos juros dos financiamentos imobiliários. Por enquanto, apenas a Caixa Econômica Federal mexeu nas taxas, mas "outros bancos estão sinalizando mudança também", pondera Igor Freire, diretor de vendas da imobiliária Lello.
A situação embora seja desfavorável às vendas num primeiro momento pode, segundo o executivo, incentivar descontos devido à situação negativa do mercado. "A mudança mexe nos valores e o vendedor pode ter de baixar um pouco o valor do imóvel para compensar oaumento do custo dos empréstimos", analisa Freire.
Apesar das perspectivas econômicas sombrias, o mercado ainda enxerga possibilidade de uma virada no segundo semestre. "O mercado só depende de uma retomada da confiança. Mas temos de ver o que acontece com o ajuste que o governo precisa dar nas contas", diz Bernardes, do Secovi.
Na visão do professor João da Rocha Lima Júnior, coordenador do Núcleo de Real Estateda PoliUSP, "se o governo for capaz de recuperar a confiança, em tese teremos um segundo semestre melhor que o primeiro, porque grande parte do problema é dúvida. Vamos saber só no segundo semestre qual o tamanho do problema".
Um aquecimento tardio do mercado, porém, poderia trazer risco de apreciação exagerada. "Em ambiente difícil, o comprador retarda a decisão porque não tem confiança no futuro. Mas quando onível de confiança cresce de novo a demanda represada voltajunto com a orgânica e isso pode provocar crescimento exagerado de preço e até bolha", pondera Lima Júnior.
Fonte: Valor Econômico, por Sérgio Tauhata, 18/02/2015

