Confrontado pelo dilema de se ver diante de um cenário de inflação em alta, mas atividade ainda muito fraca, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em evento na manhã de ontem, deu claro sinal ao mercado de que não tem tanta urgência em iniciar o ciclo de normalização monetária. As manifestações de preocupação com o ritmo ainda lento da recuperação da atividade deram força à corrente dos que veem o início da alta de juros somente no segundo trimestre, quando uma nova rodada de indicadores de atividade e inflação será conhecida.
Para Sergio Werlang, ex-diretor de política econômica do Banco Central e professor da FGV, nas condições atuais da economia brasileira, o patamar da Selic terá que se manter estimulativo e o ciclo de normalização será gradual. O ex-BC considera que a instituição tem agido de maneira certa ao sinalizar em sua comunicação recente que depende de dados de atividade econômica para promover uma alta da Selic. “Acho correto esperar um pouco para ver”, avalia.
Após a fala de Campos, em webinar promovido pelo J.P. Morgan, os juros futuros passaram a projetar uma chance de 58% de haver uma alta de 0,50 ponto percentual da Selic em março, ante 70% na véspera. A queda desse prêmio só não foi maior por causa das discussões em torno da extensão do auxílio emergencial, em particular da declaração do presidente Jair Bolsonaro de que pode haver mais três ou quatro parcelas do benefício. O receio em torno do tema fez o dólar encerrar em alta de 0,31% ontem, cotado a R$ 5,3384, assim como limitou a recuperação do Ibovespa, que fechou com ganho de 0,73%, aos 119.300 pontos, após tocar 120.320 pontos na máxima.
Para João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos, o PIB no primeiro trimestre deve ter uma retração de 0,5%, o que deve pesar nas decisões de política monetária. “A atividade econômica deve ter um peso bem grande e fará com que o Copom mantenha os juros em 2% em março e comece o ciclo de normalização em maio, levando a Selic a 4% até o fim do ano, diante de uma recuperação mais forte, que deve ocorrer no segundo semestre”, afirma o profissional.
Na mesma linha, a XP Asset acredita que, após a divulgação dos dados do varejo relativos a dezembro, que mostraram queda de 6%, a fatia majoritária do Copom que “não tinha apetite a subir juros em março” agora deverá adiar por mais uma reunião, no mínimo, o início da normalização. Segundo o economista Fernando Genta, o cenário básico da XP Asset hoje é de alta de juros 0,25 ponto percentual começando em maio, com a Selic indo até 4,25% ao fim do ano.
Se o Banco Central manifestou dúvidas sobre quando começará a subir os juros e indicou que vai aguardar a rodada de indicadores ao longo do próximo mês, há ainda uma ala do mercado que acredita que os números levarão o BC a decidir pela elevação da Selic já em março. É o caso do economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks.
‘O BC não tem mais os graus de liberdade que tinha até o fim do ano passado com esse novo choque de commodities”, argumenta ele, lembrando que as projeções da casa para o IPCA em 2021 e 2022 já estão bem próximas da meta. “Então faz sentido subir em março e vai ser algo parcial. Os 4% a que imaginamos a Selic chegar no fim do ano ainda são estimulativos, significa um juro real zerado”, afirma Weeks.
O que pode acrescentar calor à discussão continua sendo o risco fiscal. As conversas em torno do tamanho e do financiamento do auxílio emergencial estão avançando e mantêm os ativos financeiros locais sob tensão.
O mercado já absorveu a ideia de que terá de haver a extensão do benefício - o que explica, em grande medida, a alta de 3,88% do dólar neste ano. E os preços atuais dos ativos são compatíveis com um gasto de até R$ 30 bilhões. O que os investidores buscam agora são sinais de como o BC deverá agir nesse contexto.
Na visão de Weeks, a renovação do auxílio é outro fator que pesa a favor de uma antecipação da alta da Selic. Ele avalia que, dada a urgência com que o assunto é tratado em Brasília, o mais provável é que a medida seja aprovada via crédito extraordinário - e não por meio de uma PEC, como quer o governo. A medida, assim, continuaria a ser encarada pelo Copom como uma flexibilização temporária do arcabouço fiscal. “Ou seja, é mais um argumento em favor do início da normalização da política monetária em março”, diz.
Para o economista-chefe do BRP, Nelson Rocha, um auxílio de R$ 30 bilhões caberia dentro do Orçamento dentro do regime fiscal em vigor e poderia ser visto pelos agentes econômicos como solução para a falta de tração da vacinação, e não como problema, diz. Nesse cenário, ele prevê um aumento da taxa básica de juros já em março, em dose de 0,25 ponto, e Selic em 4,5% no fim do ano. “Com mais expansão fiscal, aumento de custo das matérias-primas, a política monetária expansiva por um bom tempo e aumento significativo do crédito, não deve haver outra escolha a não ser elevar os juros, mas não algo explosivo. Será um processo devagar e com controle.”
Já a Rio Bravo tem em seu cenário base uma nova rodada do programa num valor “consideravelmente menor” que o do ano passado, quando o custo mensal aos cofres públicos estava em cerca de R$ 17 bilhões. Assim, para o novo programa, o custo ficaria em torno de R$ 10 bilhões mensais, tendo em vista o valor menor e a diminuição do número de pessoas beneficiadas. Para Leal, o cenário ótimo deveria incluir uma contrapartida fiscal, com a aprovação da PEC Emergencial, por exemplo.
“No entanto, acreditamos que isso é pouco provável. O timing das coisas é bastante distinto. Aprovar uma PEC Emergencial tem um custo político bastante elevado. O novo auxílio deve ser financiado por crédito extraordinário e, portanto, deve ficar fora do teto de gastos, o que terá impacto na dívida, mas não será algo tão negativo”, diz.
Já Werlang, da FGV, vislumbra como possível conceder um auxílio emergencial com custo de R$ 20 bilhões por mês por entre três e quatro meses, desde que haja uma contrapartida. Pondera, no entanto, que o ponto chave não é a transferência de renda em si, mas se o Congresso Nacional vai aprovar a volta do programa sem promover um corte gastos, o que seria um “problema bastante sério”, já que o teto de gastos é uma âncora para as expectativas de inflação.
Nesse sentido, haveria mais encurtamento do prazo para rolagem da dívida pública, valorização do dólar e inclinação das taxas de juros de papéis prefixados, como LTNs e NTN-Fs, das taxas das NTN-Bs e alta da inflação corrente, provavelmente levando o BC a agir. “O BC aí, nesse caso, teria de provavelmente subir a taxa de juros mais cedo.”
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Felipe Saturnino, Marcelo Osakabe e Victor Rezende — De São Paulo, 12/02/2021

