Com recuo de 0,2% frente a novembro, o setor de serviços interrompeu em dezembro a sequência de seis altas consecutivas na série com ajuste sazonal. Com o desempenho, o setor encerrou 2020 com queda recorde de 7,8% dentro da série da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), iniciada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2012. Para além disso, a queda também revela, ao lado de outros indicadores, o impacto conjunto que a segunda onda da covid-19 e a perda de renda disponível deverão ter no ritmo da economia no início de 2021.

O gerente da PMS, Rodrigo Lobo, afirma que o desempenho de dezembro já reflete a maior disseminação da pandemia naquele mês e que indicadores antecedentes do setor apontam para esse impacto também em janeiro. Para ele, nada será mais importante para ajudar o setor de serviços do que a vacinação em massa.

Com queda de 35,6% no acumulado de 2020 - também a maior da série histórica da pesquisa -, os serviços prestados às famílias foram a principal influência negativa. A retração foi puxada pelo subgrupo de serviços de alojamento e alimentação, com recuo de 36,8%. Outros serviços prestados às famílias também recuaram, em 29%.

O grupo de transportes como um todo também teve retração recorde (-7,7%), refletindo o recuo das viagens e a menor movimentação de pessoas no dia a dia, com o avanço do home office. Os serviços prestados às famílias e os de transporte também também puxaram a queda em dezembro, com recuos respectivos de 3,6% e de 0,7% contra novembro, com ajuste sazonal.

O comportamento das categorias na PMS é muito informativo para as tendências, diz Luana Miranda, pesquisadora da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibrfe/FGV). “Essa segunda onda deve ter impacto importante nos serviços também no início de 2021 e já foi sentido em dezembro. Isso deve se intensificar um pouco mais no primeiro trimestre”, avalia. Os serviços, diz ela, são sensíveis à segunda onda de covid-19, e devem ter apresentado piora em janeiro, na margem. Mas não é só a pandemia que tem afetado a demanda, diz. “Não há justificativa para o desempenho do varejo também ter vindo tão mal em dezembro, diz ela, com o desenvolvimento que tivemos no comércio eletrônico.”

Além da segunda onda, aponta, há desaceleração da renda neste fim de ano dada por vários fatores, como a redução do auxílio emergencial e a antecipação do décimo terceiro a aposentados e pensionistas. Há também, acrescenta, efeitos da inflação mais alta no quarto trimestre de 2020 e de festas de fim de ano mais contidas, com menores trocas de presentes.

Helcio Takeda, sócio da Pezco, também avalia que a segunda onda somada à perda de renda disponível devem levar a nova perda do setor de serviços em janeiro. Ele projeta preliminarmente queda de 0,5% no volume total de serviços em janeiro, na margem, com ajuste sazonal, já que vários Estados adotaram no primeiro mês do ano regras mais rígidas em termos de isolamento social para o combate à pandemia.

Para Lisandra Barbero, economista da XP, dezembro e janeiro parecem ter sido meses particularmente difíceis para o setor de serviços, com o endurecimento de medidas de isolamento social em algumas regiões. “No entanto, embora ainda frágil devido à pandemia, mais de 80% do setor de serviços vem se recuperando a um ritmo significativo nos últimos seis meses, de acordo com o nosso índice de momentum”, destaca Lisandra. Apesar das dificuldades de curto prazo, conclui, as perspectivas para a recuperação do setor de serviços em 2021 ainda são positivas.

Para Lucas Rocca, da LCA Consultores, o desempenho do setor de serviços em dezembro confirma a expectativa de desaceleração da economia neste início de 2021. O agravamento da pandemia, a lentidão da vacinação e a renda enfraquecida, com fim do auxílio emergencial e mercado de trabalho lento, pesam sobre o setor. A projeção preliminar da LCA é que o volume de serviços avance 0,3% em janeiro, na margem.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lucianne Carneiro e Marta Watanabe — Do Rio e de São Paulo, 12/02/2021