Desde 2005, ano em que o centro da meta inflacionária para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) perseguido pelo Banco Central foi fixado em 4,5%, a inflação só ficou perto desse nível em 2006, 2007 e 2009. Nos demais anos, o IPCA sempre se situou mais próximo ao teto da banda, de 6,5%, do que do alvo central.
De 2005 até 2013, a alta média anual do indicador foi de 5,3%, quase um ponto percentual acima do centro. Nos últimos quatro anos, essa distância aumentou: a partir de 2010, o IPCA avançou a uma média anual de 6%. Para economistas, a herança da indexação deixada pelos anos de hiperinflação explica parte importante da resistência da inflação à queda no longo prazo. No período mais recente, ganharam destaque as expectativas desancoradas, que são transmitidas aos preços correntes como uma forma de se proteger de futuros aumentos, e também o expansionismo da política fiscal.
Segundo a maior parte dos especialistas ouvidos, apesar da permanência do IPCA em torno de 6%, esse não seria o "nível natural" de inflação no país: os preços podem convergir para a meta, caso as políticas fiscal e monetária voltem a caminhar juntas, o que teria efeito positivo sobre as expectativas.
Fernando Cardim de Carvalho, da UFRJ, afirma que a avaliação de que a política fiscal é expansiva e manipulada por meio de truques contábeis alimenta as expectativas inflacionárias. Também há, segundo ele, aumentos de preços com grande visibilidade e impacto relevante sobre a percepção da população, como a alta de imóveis e aluguéis em grandes cidades.
Agravando esse quadro, o economista da UFRJ afirma que alguns preços têm sido manipulados de forma "bastante primitiva", especialmente gasolina e tarifas públicas, o que gera a suposição de que terão reajuste explosivo em algum momento. Há, ainda, o temor de que o BC seja tolhido em seu ciclo de aperto monetário devido às eleições. Como os preços livres tendem a ser fixados com vistas ao futuro, diz, as expectativas são transmitidas aos preços correntes. "Se a expectativa é de alta, é inevitável que haja pressão sobre preços."
Para o coordenador do IPC-Fipe, Rafael Costa Lima, a inflação de 6% ficou percebida como estável, porque o centro da meta não foi perseguido no governo atual. Em sua opinião, a atual gestão se deu por satisfeita ao alcançar patamares dentro da banda permitida pelo regime, que vai de 2,5% a 6,5%. "Essa foi a principal mudança que gerou a inflação mais alta", afirma.
Segundo Lima, existem mecanismos de indexação na economia que dificultam a desaceleração dos preços. Destaca que a inflação ainda é o principal parâmetro para contratos como aluguéis, concessões e reajustes salariais. Para ele, a melhor ação para reduzir a alta dos preços no momento seria um ajuste fiscal "moderado", dado que os juros já voltaram a subir.
"A política fiscal pode não ser muito expansionista, mas seguramente não é contracionista. Ela não tem ajudado", diz Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, para quem o conjunto da política econômica não é muito coerente. "Com comunicação melhor, não teríamos inflação de 4,5% ao ano", diz Cunha, "mas seria possível que o IPCA ficasse entre 5% e 5,5% sem a perspectiva de que a alta dos preços no ano seguinte será igual ou maior do que no período anterior."
Segundo Salomão Quadros, do Ibre-FGV, não existe um nível "natural" já consolidado de inflação. O patamar atual, que se deu após o relaxamento das políticas monetárias e fiscal e a depreciação do câmbio, pode ser alterado caso o governo tome medidas mais "austeras", afirma. Isso comprometeria o desempenho do PIB e do mercado de trabalho no curto prazo, diz ele, mas o quadro mais recessivo não duraria para sempre. O grau de austeridade necessário, de acordo com Quadros, poderia ser menor caso houvesse contenção das expectativas inflacionárias.
"No médio prazo, a inflação converge para o patamar das expectativas de mercado", observa Fernando Genta, da MCM Consultores. Para ele, não é coincidência que as expectativas estejam em 5,5% para os próximos anos, muito próximas da média da inflação dos anos anteriores.
Fonte: Valor, Arícia Martins, 11/02/2014

