A inflação arrefeceu em janeiro com o IPCA de 0,25%, abaixo da mediana das expectativas, de 0,32%. Nenhum dos nove grupos do índice apresentou elevação de dezembro para janeiro e houve até deflação de 1,07% na habitação. Os efeitos do auxílio emergencial, já reduzido à metade, parecem ter se esvaído. A segunda onda da pandemia está atingindo com força considerável tanto a produção como o consumo. A perspectiva de um aumento de juros em março perde força, apesar das expectativas do mercado de juros indicarem 70% de chances de uma alta de 0,5 ponto já na próxima reunião do Copom e 30% de uma elevação de 0,5 ponto.
O vilão da inflação, o setor de alimentos e bebidas, teve desempenho contido, com recuo de 1,74% para 1,02% em janeiro. A variação dos preços nos demais setores foi tão ou mais expressiva. Ela caiu pela metade nos artigos residenciais (0,86% em janeiro), dois terços em transporte (0,4%) e educação (0,13%), foi a zero em comunicação e tornou-se negativa em habitação e vestuário. O índice do setor de serviços foi de 0,83% em dezembro a quase zero em janeiro (0,07%).
Relevante para o futuro, o índice de difusão, o grau de disseminação dos aumentos, foi de 65,5%, ante 72,1% em dezembro. Eliminados os alimentos da conta, houve recuo de 69,4% para 59,3%. A mediana do IPCA apontada no boletim Focus para o primeiro trimestre do ano, de 1,20%, pode ser frustrada, se a taxa de câmbio se comportar. A projeção do BC, no Relatório de Inflação de dezembro, está mais perto da realidade. Para janeiro, a previsão era de 0,27%, ante 0,32% dos analistas e consultorias. A discrepância é maior em fevereiro - 0,36% e 0,59%, respectivamente.
O estado atual de uma economia freada pela segunda onda da pandemia poderá ainda perdurar por algum tempo. Boa parte das estimativas apontam para uma retração no trimestre, que pode ser moderada (0,7%, segundo o Focus) ou significativa (os economistas do Bank of America revisaram a queda de 1% para 2%). O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, observou que a recuperação, no início em V, perdeu fôlego. “O crescimento do primeiro trimestre será menor do que esperávamos, mas o quarto trimestre foi melhor”, observou durante webinar do Observatory Group.
A perspectiva para o segundo trimestre, segundo ele, vai depender da vacinação, cujo ritmo atual “é lento”. A economia deve se tornar mais dinâmica no segundo semestre. Esse cenário não parece combinar com uma alta dos juros rápida e intensa ou para uma inflação persistente. “Há muito barulho nos índices de curto prazo”, disse Campos Neto.
O passado de baixa inflação conspira contra o IPCA futuro sem, no entanto, desautorizar a previsão do BC que a elevação dos preços, ainda que mais duradoura do que o esperado, é provisória. Entram no IPCA em doze meses, agora em 4,56%, a inflação baixa do início da pandemia - 0,07 em março e deflação em abril e maio (-0,31% e -0,38%).
O barulho fiscal, por outro lado, tem atingido a política monetária diretamente, via elevação da curva de juros e expectativas negativas, na taxa de câmbio. A alta do dólar, em raro alinhamento com a elevação dos preços das commodities, potencializou o aumento de preços dos alimentos e de matérias-primas industriais. É um dos fatores mais ativos agora. No ano, a moeda americana subiu 3,54% (até segunda-feira), mas no mês houve um recuo de 1,83%. A queda dos prêmios de risco (CDS) de 12,7% nos poucos primeiros dias de fevereiro é um sinal de que o câmbio pode perder fôlego.
O Copom retirou a prescrição futura de sua agenda e resolveu esperar mais até elevar os juros. Em tabelas da apresentação de Campos Neto, os juros reais brasileiros são os mais negativos (-2,41%) entre 17 países e blocos, como a zona do euro. Com os núcleos apontando zona de perigo para a política monetária, o aumento da Selic entrou no radar do BC, mas não é uma fatalidade.
O cenário de curto prazo se parece razoavelmente com o alternativo traçado no Relatório de Inflação. Ele estimou os efeitos de uma pandemia prolongada, que não reduzisse o hiato do produto (de 3,9% no quarto trimestre de 2020) nos dois primeiros trimestres de 2021. Com essas premissas, o BC projetou inflação de 2,4% no último trimestre do ano. Como ele olha cada vez mais para 2022, uma pequena elevação dos juros já removeria os “estímulos extraordinariamente elevados” da política monetária. Por vários motivos, a alta delineada na curva dos juros parece exagerada enquanto a economia não tiver deixado a pandemia para trás e demonstrar pelo menos razoável vigor.
Fonte: Valor Econômico - Opinião, 10/02/2021

