Métricas de equilíbrio mostram que o real está barato e a tendência seria de valorização cambial no Brasil, mas essa narrativa encontra dificuldades para se concretizar, apontou Marcelo Carvalho, diretor global de pesquisa para mercados emergentes do BNP Paribas. “Essa tem sido uma história que eu ouço já há vários meses e que não tem se materializado”, disse ele ontem na Live do Valor.

No geral, a avaliação do BNP é que o dólar tende a perder força ante outras moedas nos próximos meses. É boa notícia para o câmbio em emergentes, inclusive o Brasil. Um dólar mais fraco “ajuda a empurrar para cima preços de commodities”, além de promover fluxo de capital de países avançados para emergentes, disse Carvalho.

Pelas medidas de equilíbrio, o dólar poderia cair, segundo ele, até abaixo de R$ 4,50. “Mas não tenho nenhuma garantia de que vamos chegar lá”, afirmou. “Depende desse cenário de dólar, preço de commodities, balanço de pagamentos e também do que a gente faz em termos de lição de casa no Brasil. Quanto mais avançar nas reformas estruturais que coloquem as contas públicas sob controle, mais conforto o investidor internacional terá em trazer recursos”, disse. Algum estímulo adicional à economia neste ano, como um novo benefício emergencial, pode ser compreensível, desde que considere o contexto da dinâmica da dívida pública.

O BNP projeta dólar a R$ 4,25 no fim deste ano, mas Carvalho ponderou a complexidade em se acertar previsão de câmbio. “A direção parece que faz sentido, a ordem de grandeza também, o número exato é difícil de cravar.”

Outro fator que tem influenciado o câmbio é o avanço da vacinação nos países, já que os desdobramentos da pandemia pautam o ritmo das economias, disse o diretor do BNP. E, na garantia de vacinas, há grande diferença entre a situação no mundo desenvolvido e entre emergentes, observou.

Um movimento abrupto de alta dos juros nos Estados Unidos, outro fator negativo para o câmbio em emergentes, representa, por ora, um risco baixo, avaliou Carvalho. Para o BNP, os EUA só devem começar a subir juros em 2024. O Federal Reserve (banco central americano) tem sinalizado que será “muito paciente” com a inflação, lembrou ele.

Além dos juros baixos em si, a recuperação da economia americana é boa para mercados emergentes exportadores, “ainda mais agora com a ajuda do estímulo fiscal”, disse o economista, em referência ao pacote avaliado em US$ 1,9 trilhão, tamanho que disse fazer “todo o sentido”.

A tendência positiva em commodities “veio para ficar”, e a alta no petróleo “é má notícia para a inflação”, reconheceu Carvalho. Ele reforçou, porém, que políticas para congelar artificialmente preços são desastrosas. Em geral, a inflação nos emergentes não preocupa no curto prazo, sobretudo quando consideradas medidas como os núcleos além do desemprego elevado, observou Carvalho.

Para ele, a maioria dos bancos centrais desses países não deve mexer em juros tão cedo. No Brasil, como o afrouxamento monetário foi forte, o processo de normalização deve ter início antes. O BNP espera que a Selic comece a subir em maio, chegando a algo como 4,5% no fim do ano.


Fonte: Valor Econômico - Finanças , por Anaïs Fernandes e Lucinda Pinto — De São Paulo, 09/02/2021