Principal articulador da reforma da Previdência, o ex-secretário especial da Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho, foi nomeado ontem para o posto de ministro do Desenvolvimento Regional. Marinho substituirá Gustavo Canuto, que passará a presidir a Dataprev, estatal responsável pelo processamento de informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Marinho ficará agora responsável por gerir os visados recursos do Minha Casa, Minha Vida e liderar a reformulação do programa, um plano do governo. Ele será substituído na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho por seu secretário adjunto, Bruno Bianco, que também participou ativamente das discussões da reforma da Previdência.

Canuto, por sua vez, chega à estatal em um momento em que o governo busca uma solução para reduzir a fila do INSS. A análise dos processos está travada desde a aprovação da reforma da Previdência, no fim do ano passado. Após a exoneração, o presidente Jair Bolsonaro disse que o ex-ministro irá “cumprir uma missão na Dataprev”.

Servidor da carreira de especialista em políticas públicas e gestão governamental, Canuto havia sido chefe de gabinete e secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional no governo Michel Temer. Bolsonaro juntou a pasta com o Ministério das Cidades, responsável por questões de habitação e saneamento básico, transformando-a no ministério com o maior orçamento de toda a Esplanada.

A cadeira de Canuto sempre foi visada pelo Congresso pelo papel estratégico no repasse de recursos a Estados e municípios. Por isso, tanto no Senado quanto na Câmara, era frequente o burburinho de que deputados do Centrão e senadores das regiões Norte e Nordeste estavam insatisfeitos e queriam a substituição de Canuto por um nome mais próximo da classe política.

Nos bastidores, Canuto também entrou em embates com a equipe econômica desde meados do ano passado. Em conversas reservadas, auxiliares do ministro Paulo Guedes o criticavam sempre que encontravam uma oportunidade. Um dos alvos da reclamação era sua suposta falta de empenho na defesa de um modelo mais “privatizante” dos serviços de fornecimento de água e tratamento de esgoto, no âmbito do novo marco legal do saneamento. Guedes chegou a falar, em reunião com todos ministros, que considerava a pasta do Canuto inútil e que, por ele, faria tudo por PPPs, sem precisar de um ministro para isso.

Outro ponto de atrito foi a reformulação do programa Minha Casa, Minha Vida. Canuto vinha insistindo na criação de um sistema de vouchers para que os beneficiários da faixa 1 - até R$ 1,8 mil de renda mensal familiar - pudessem arcar com a compra ou reforma de suas casas. Esse modelo era tido como inviável por boa parte da equipe econômica, por causa das dificuldades de fiscalização e prestação de contas, mas o então ministro jamais abriu mão da ideia.

Pesava ainda o perfil técnico de Canuto. Numa pasta com grande concentração de emendas parlamentares e ações em municípios do interior, ele resistia a se comprometer com projetos que não poderia honrar financeiramente, mas importantes para políticos interessados em fazer promessas nas suas bases eleitorais.

Marinho, por sua vez, é conhecido pela boa relação com o Congresso e pela capacidade de articulação política. Filiado ao PSDB, o ex-deputado federal foi relator da reforma trabalhista durante o governo do ex-presidente Temer, em 2016, e não foi reeleito nas últimas eleições.

O setor da construção, segundo uma fonte ouvida pelo Valor, comemorou a troca. A avaliação é de que Marinho tem muito trânsito no governo e uma boa interlocução com o Ministério da Economia, o que Canuto não tinha. Para o setor, o ministro era muito cortês, mas não conseguia resolver os problemas do setor relacionados principalmente aos pagamentos do Minha Casa, Minha Vida. "O FGTS parou", frisou a fonte.

 

Fonte: Valor-Política, por Mariana Ribeiro, Lu Aiko Otta, Edna Simão, Daniel Rittner, Fabio Murakawa, Raphael di Cunto e Vandson Lima - Brasília, 07/02/2020