Enquanto as atenções dos agentes financeiros se mantiveram voltadas a Brasília, os mercados de juros e de câmbio colocaram na balança a expectativa pelo avanço da agenda de reformas estruturais e a desconfiança em relação à trajetória da dívida pública. Assim, as taxas futuras oscilaram entre margens estreitas no pregão da B3 ontem, em um dia marcado pela baixa liquidez. Já o dólar fechou com leve avanço contra o real.
Passada a eleição para as presidências na Câmara dos Deputados e no Senado, os agentes financeiros voltaram-se à primeira declaração conjunta do novo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, dada ainda pela manhã, sobre a perspectiva da pauta a ser tocada pelos parlamentares.
Ao lado deles no pronunciamento, o presidente Jair Bolsonaro disse que a agenda está voltada à pandemia, à economia e às reformas de Estado, mas o chefe do Executivo não especificou a pauta. Pacheco afirmou que a disponibilização de vacinas e medidas econômicas são prioridade, voltando a citar um auxílio emergencial dentro do teto de gastos, enquanto Lira apontou que a Câmara está 100% preocupada com a pandemia inicialmente. Mais tarde, o deputado indicou que a Câmara irá fazer tudo o possível para ampliar a oferta de vacinas e o amparo aos vulneráveis.
“O fato de não se falar explicitamente em corte de gastos para compensar algum auxílio emergencial traz alguma cautela”, diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest. “Ainda que as reformas estejam na lista de prioridades, nem Lira nem Pacheco falaram fortemente delas. Fala-se de auxílio e não se fala de contrapartida.”
O Valor obteve a planilha que Bolsonaro entregou a Lira e Pacheco em encontro na manhã de ontem, que enumera 35 projetos prioritários ao governo. Na pauta econômica, encontram-se listadas no documento as reformas administrativa e tributária, além da PEC Emergencial, dos Fundos e do Pacto Federativo, propostas às quais o mercado é altamente sensível.
Apesar desses projetos constarem das prioridades do governo, os sinais a respeito de uma eventual extensão do auxílio emergencial não foram digeridos positivamente pelo mercado, que fica à espera de alguma contrapartida para compensar a eventual medida no sentido de limite de gastos.
Consorte também chama a atenção para um possível risco à agenda de reformas: a pauta de costumes. Ela questiona se o tempo usado para estes temas não tirarão o foco de reformas com o objetivo de controlar os gastos públicos. “É algo a se observar”, diz.
Na avaliação do Bank of America, a Câmara deve priorizar a aprovação do Orçamento de 2021 no curto prazo. Eles lembram que “um eventual aumento da ajuda emergencial em meio à segunda onda de casos de covid provavelmente será decidido também como parte da aprovação do Orçamento”. Lira já apontou que é possível aprovar o projeto ainda em fevereiro, enquanto Pacheco acredita em uma aprovação em março.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Felipe Saturnino — De São Paulo, 04/02/2021

