Talvez não seja uma tempestade perfeita. Mas o consumidor começa o ano no olho do furacão. Todo o cenário econômico parece conspirar contra quem precisa contratar financiamento. Não bastassem os aumentos de tarifas, a economia fraca, com piora da perspectiva de emprego, e a inflação altamente corrosiva para os orçamentos domésticos, o mais recente aumento da Selic em janeiro, para 12,25% ao ano, mantém o impulso do encarecimento do crédito, que deve piorar ainda mais ao longo dos próximos meses. O cenário fica ainda mais difícil na esteira do reforço da artilharia anti­consumo pelo governo, que elevou a alíquota do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) sobre empréstimos às pessoas físicas, de 1,5% para 3%.

As más notícias para os empréstimos ao consumidor, entretanto, não param nas altas do imposto e da taxa básica e no cenário nada amigável. O crédito imobiliário também ficou mais caro. A Caixa Econômica Federal, que detém 7 0% do mercado, anunciou um aumento nos juros do financiamento habitacional, que leva a taxa de volta à casa dos dois dígitos para imóveis com valores fora dos parâmetros do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), ou seja, acima de R$ 7 50 mil.

 Desde o início do aperto monetário, em abril de 2013, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou a taxa básica da mínima histórica, de 7 ,25% ao ano, para 7 ,5%, até agora, a Selic subiu cinco pontos percentuais, para os atuais 12,25%. Como resultado, em dois anos, o crédito ao consumidor ficou 28% mais caro na média das taxas de juros das linhas mais populares oferecidas pelas instituições financeiras, segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Para efeito de comparação, o crescimento médio real da renda se situou em 2,5% em 2013, segundo o IBGE, e tem estimativa de aumento de 2% para o ano passado.

Na linha mais cara ­ caso do cartão de crédito ­, os juros subiram 34% em dois anos, de janeiro de 2013 a janeiro deste ano, conforme dados da Anefac. E a tendência é de a alta continuar. Isso porque o Comitê de Política Monetária (Copom) deve promover ao menos mais um aumento da taxa básica, segundo as expectativas de analistas e economistas consultados pelo BC no boletim Focus, que preveem os juros no patamar de 12,50% no fim deste ano.

Embora haja consenso em torno de novo aperto no crédito em horizonte próximo, o aumento da Selic desde 2013 já levou algumas linhas a alcançar topos históricos. Os juros cobrados pelos cartões de crédito, por exemplo, atingiram na virada do ano o maior nível desde 1999, segundo pesquisa da Anefac. A taxa da modalidade alcançou uma média de 259,81% ao ano.

De acordo com pesquisa do BC, o cheque especial, por sua vez, está no patamar mais elevado em 16 anos. Dados da autoridade monetária apontam que a taxa do cheque especial subiu nove pontos percentuais apenas de novembro para dezembro do ano passado e alcançou 200,6% ao ano. Tratase da maior leitura desde fevereiro de 1999, quando era de 204%. Ao longo de 2014, a taxa da modalidade avançou 52,7 pontos percentuais.

Já a alta do IOF faz parte de um "combo"para aumentar a arrecadação ­ o impacto desse aumento nos cofres públicos é calculado em R$ 7 ,3 bilhões, parte considerável do aumento de impostos dentro do ajuste fiscal anunciado pela nova equipe econômica, que tem como meta aumentar o valor obtido com os tributos em mais R$ 20 bilhões.

O IOF incide em operações financeiras no momento em que o consumidor contrata o empréstimo ou financiamento: o tributo cobrado é de 0,0082% ao dia (antes do ajuste, a alíquota era de 0,0042%) até um limite máximo de 3% no caso de um financiamento de um ano ou que ultrapasse esse limite. Na alíquota, o aumento anual foi de 1,5 ponto percentual. Contudo, segundo o diretor executivo de estudos e pesquisas econômicas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, no bolso do comprador, o impacto chega a 2 pontos percentuais devido ao efeito dos juros compostos: o banco paga o montante ao governo e repassa o valor para o consumidor, mas diluído nas parcelas mensais.

Taxas de juros do cartão de crédito e do cheque especial alcançaram em dezembro o maior patamar desde 1999

Combinado, o impacto de Selic e IOF pode significar, na prática, um encarecimento de até 24% nas mensalidades de operações de pequeno porte, as mais comuns entre consumidores pessoa física. Simulação da Anefac mostra que hoje um empréstimo pessoal de R$ 4.000 no banco, a juros médios de 3,6% ao mês e em 12 parcelas, ficará cerca de 10% mais salgado na conta final em comparação às condições de dois anos atrás, com taxa básica na mínima histórica e IOF de 1,5%. Já nas linhas habitualmente caras, como o rotativo do cartão de crédito, a diferença pode alcançar quase 25%, em média, para uso em 20 dias, de acordo com dados da entidade.

 O preço do crédito imobiliário da Caixa ­ cujo valor é parâmetro para os outros bancos em financiamentos no setor ­ também ficou mais azedo a quem planeja a compra de uma residência. Para clientes, segundo pesquisa do Instituto DSOP Educação Financeira, a taxa subiu de 8,7 5% para 9% no Sistema de Financiamento Habitacional (SFH) e de 9,1% para 10,7 % no Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI).

Em simulação para o Valor, o Instituto DSOP indica que na compra de um imóvel de R$ 500 mil em 360 parcelas no SFH, a nova taxa onera o consumidor em mais R$ 30 mil ­ valor equivalente a um carro popular zero. No caso de um imóvel avaliado em R$ 1 milhão e financiado dentro das condições do SFI (para imóveis a partir de R$ 7 50 mil), a conta é bem mais pesada: ao fim dos mesmos 360 meses, o valor total, que antes seria de R$ 2,9 milhões, agora atinge R$ 3,4 milhões, ou o custo de um apartamento extra de R$ 500 mil.

Dentro desse cenário, o conselho dos especialistas para que o consumidor sinta menos o impacto do imposto e dos juros é unânime: evite financiamentos ou os faça com maior entrada e menor prazo possíveis. "A ordem agora é poupar antes de adquirir. Ficou muito mais caro financiar e conseguir crédito, então se quiser comprar um bem, siga a cartilha de guardar dinheiro, investir e comprar à vista no futuro", recomenda Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper. "Mas não seja tão radical: se encontrou o bem desejado, como o apartamento dos sonhos, faça as contas bem direito e financie a menor parcela possível", conclui.

Está claro que o consumo baseado em financiamentos deve ser evitado neste momento. É, portanto, a hora mais adequada para poupar e investir, avisam os especialistas em finanças. "O crédito ficou mais caro, então a melhor dica é usar os juros a seu favor: invista em renda fixa, títulos do Tesouro e aplicações que sejam ligadas ao CDI", indica o economista Samy Dana, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP).

Além do crédito mais caro com alta de IOF e Selic, pesam sobre o bolso do consumidor alíquotas mais altas de PIS/Cofins sobre importações (de 9,25% para 11,7 5%) e combustíveis, além da retomada da Cide (que incide sobre a gasolina e o diesel, causando, potencialmente, aumento de R$ 0,22 e R$ 0,15, respectivamente), entre outros. A conta ainda inclui os reajustes sobre os preços controlados, como da energia e da água. "São medidas que fazem sentido para recuperar a economia, mas é injusto colocar tudo só na conta do consumidor", afirma Dana. (Colaborou Sérgio Tauhata)







Fonte: Valor Econônico, por Luiz Felipe Silva, 04/02/2015