Impulsionado pelo socorro federal durante a pandemia, Estados e municípios encerraram o ano passado com um superávit primário de R$ 38,7 bilhões. O resultado positivo apresentado foi o maior desde que se registra essa estatística, evidenciando que o caixa dos entes, principalmente dos governos regionais, está em um patamar bem melhor que nos últimos anos.

Diante desse quadro, alguns economistas já sugerem que os Estados participem de uma eventual nova rodada de auxílio emergencial, aliviando a conta para o governo federal, que teve no ano passado seu pior déficit da história. Representantes dos Estados, porém, apontam que o superávit não é sobra de dinheiro e que a ideia não seria factível para os entes.

A proposta até o momento não está sendo discutida entre governo federal e Estados, mas já encontra simpatia na equipe econômica. Segundo o economista Gabriel Leal de Barros, sócio e economista-chefe da RPS Capital, com R$ 38 bilhões seria possível pagar o valor médio do Bolsa Família (R$ 191) para 50 milhões de pessoas por quatro meses.

“A relação federativa não deve ser unilateral, egoísta e desequilibrada, pelo contrário. O bom senso e o mínimo de solidariedade federativa fariam bem às finanças públicas, às famílias em situação de vulnerabilidade social e ao Congresso, que teria algum tempo adicional para aprimorar a rede de proteção social com responsabilidade fiscal”, disse. Barros publicou a proposta no blog do Ibre/FGV.

Ele admite que o desenho descentralizado pode acabar deixando algumas famílias de fora em alguns Estados, mas isso poderia ser solucionado com o governo federal atuando por meio do Bolsa Família e dentro do teto de gastos. Além disso, destaca que as bases de dados para identificação e (adequada) focalização das pessoas que efetivamente precisam de suporte financeiro estão disponíveis no CadÚnico, CNIS e conta digital da Caixa, bastando serem integradas e compartilhadas entre os entes. “É simples e rápido, notadamente pela experiência pregressa do auxílio emergencial”, disse.

Barros avalia ainda que a medida dificilmente deixaria os Estados de “pires na mão” porque, com a recuperação da economia, volta das escolas e vacinação, a arrecadação desses entes tende a crescer.

Sócia da consultoria Oliver Wyman, a ex-secretária de Fazenda de Goiás e também especialista em política fiscal Ana Carla Abrão aprova a ideia. Ela disse que isso evitaria que o dinheiro fosse empregado pelos governos estaduais para aumentar despesas obrigatórias, em especial salário de servidores. Ela lembra que alguns Estados, como Goiás, já têm programa dessa natureza e que alguns entes ainda terão alívio extra com o novo programa de recuperação fiscal.

Na visão dela, o saldo recorde dos Estados em 2020 refletiu prioritariamente os repasses do governo federal, mas também a maturação de medidas de ajuste, como o congelamento de salários em parte dos Estados. Ana Carla, porém, alerta que a melhora é conjuntural. “Estruturalmente os Estados continuam desajustados”, explicou. “Que a gente tem uma bomba armada para 2022 eu não tenho dúvida. Os governos estão sem dar aumento substanciais de salários para servidores, sem fazer concursos e ano que vem é eleitoral. Se não apertar o cinto agora, o próximo ano será de explosão de gastos e 2023 será como terra arrasada.”

Ex-ministro da Fazenda e secretário de Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles se posiciona contra a ideia. Ele explica que esse superávit primário dos Estados é para pagar dívidas desses. “Em São Paulo, por exemplo, nós tivemos um superávit primário, mas o déficit orçamentário de R$ 10 bilhões”, disse ao Valor. “Então, não há espaço, o dinheiro é para pagar dívidas”, acrescentou.

O diretor institucional do Comitê de Secretários Estaduais de Fazenda (Comsefaz), André Horta, não considera factível a proposta e lembra que o repasse federal aos entes foi para recomposição de perdas, em um contexto no qual os Estados não podem emitir dívida.

“As sobras dos Estados são em relação à mesma arrecadação nominal de 2019... E são perspectivas muito heterogêneas: alguns Estados nem sequer conseguiram a cobertura da arrecadação nominal de 2019, como o Ceará. Outros estão com folhas atrasadas, buscando um calendário para tentar resolver em 2021”, acrescentou

Ele cita que em alguns locais, como Maranhão, deputados estaduais levantaram a discussão sobre a possibilidade de auxilio local. “Mas essa possibilidade efetiva de simples discussão desse assunto, algo que muitos governadores se pudessem certamente gostariam de fazer, é rara. A realidade é a busca por novas fontes de financiamento, revisão de benefícios... busca de receitas próprias e financiadas enquanto o Legislativo não formula uma solução que resolva as perdas federativas crônicas e sistêmica dos Estados”.

Em 2020, o governo federal repassou R$ 78,3 bilhões a Estados, municípios e Distrito Federal, 115% mais que o estimado com a perda de arrecadação com ICMS.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fabio Graner — De Brasília, 03/02/2021