A definição da presidência do Congresso, crucial para o progresso da agenda liberal do governo, a perspectiva de alta da Selic, mais provável após a última reunião do Copom, e o cenário externo, francamente a favor da queda do dólar, formam um ambiente positivo para a apreciação do real em 2021. Mas o movimento de valorização cambial só deve se concretizar à medida que a pauta de reformas de fato avançar no Brasil, reduzindo a percepção cautelosa dos agentes sobre as contas públicas, dizem analistas ouvidos pelo Valor.
“Há um bom espaço para o real se valorizar daqui para frente, mas isso depende de avanços concretos na agenda de reformas, já que o risco fiscal é bastante elevado”, diz Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho. Em seus cálculos, o real se encontra atualmente 11% subvalorizado em relação à média de uma cesta de moedas emergentes, o que dá margem para a apreciação da divisa, a depender de progresso na pauta liberal.
O estrategista avalia que permanecem incertezas relacionadas à articulação entre Executivo e Legislativo na consolidação dessa agenda. Ele repara que o primeiro trimestre será desafiador para a economia e poderá afetar o câmbio e outros ativos locais, uma vez que a atividade deve desacelerar e a inflação alcançará altos patamares. “Isso elevará a pressão por gastos públicos e, consequentemente, vai ser demandada uma grande convicção do governo sobre a necessidade de ajuste fiscal.”
O CEO da BGC Liquidez, Erminio Lucci, analisa que a performance do real não está apenas ligada aos ruídos políticos, mas que hoje ela implica baixa perspectiva de aprovação de reformas. “A ênfase do Legislativo ou não na pauta liberal e a relação com o Executivo serão determinantes para o dólar”, argumenta ele, vendo boas chances de aprovação da reforma administrativa, bandeira de Arthur Lira (PP-AL) na campanha para a Câmara dos Deputados. Lucci cita o ritmo de vacinação, o cenário externo e o “carry trade” - ligado à baixa taxa de juros e ao menor diferencial com o exterior - como outros fatores que pesam no real.
A avaliação de economistas é que a elevação da Selic é um fator de pouco peso no nível de preço da divisa americana, apesar de sua elevação aumentar o diferencial de juros em relação a outras economias. O progresso nas reformas e a melhora na avaliação de risco fiscal, sustentam os profissionais, ainda se sobrepõem aos efeitos da política monetária muito frouxa, sendo os principais drivers para permitir um dólar abaixo de R$ 5.
Na semana passada, um ajuste na comunicação do Banco Central em relação ao futuro do juro básico, adotando tom “dovish” em relação ao que apresentou no comunicado e na ata, contribuiu para devolver o dólar a patamares maiores.
“Achamos que a alta de juros pode não ser suficiente para mudar a tendência da moeda”, diz Juan Prada, estrategista de câmbio do Barclays, completando que não vê o início do aperto como um “gamechanger”. “O BC precisaria aumentar os juros mais cedo devido aos riscos inflacionários impulsionados por aumento potencial nos gastos fiscais em resposta à piora da pandemia”, sustenta, citando não se tratar de caso de melhora dos fundamentos para o real.
“O juro teria de ser muito maior para trazer o estrangeiro para operar diferencial de juros na renda fixa”, diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos. Abdelmalack concorda com a avaliação segundo a qual o dólar tem a tendência de se enfraquecer globalmente, em virtude da continuidade do afrouxamento monetário por parte do Federal Reserve.
Entretanto, o andamento das reformas permanece um fator de cautela nas contas de Abdelmalac em relação ao real - a projeção dela para moeda americana ao fim do ano é de R$ 5,05, ligeiramente acima do projetado na pesquisa Focus do Banco Central. “O exterior favorável ao dólar fraco dá um bom espaço para nos recuperarmos e andarmos perto dos fundamentos, mas temos que sinalizar um orçamento saudável, passar alguma reforma, como a tributária, o que não é simples”, completa ela, que vê chances de dólar a R$ 4,75 no cenário de andamento da agenda.
O Santander era uma das instituições otimistas com o câmbio, projetando o dólar a R$ 4,60 ao fim do ano. Mas sinalizações fiscais controversas de duas semanas atrás e dúvidas sobre o avanço de reformas puseram a expectativa com a moeda em revisão. O espaço para apreciação do real liga-se à aprovação de reformas que controlem o gasto, diz Jankiel Silva, economista do banco. “Uma versão diluída da PEC Emergencial, uma consolidação fiscal ou reestruturação do Orçamento - reformas que limitem o gasto tirariam o prêmio implicado na nossa moeda hoje”, afirma.
O UBS BB enxerga uma tendência positiva para o real com base no cenário externo, tendo em vista os termos de troca favoráveis ligados ao altos preços das commodities - desde que o nível de auxílio emergencial à população seja menor em comparação ao do ano passado.
“O dólar precifica a nossa resposta fiscal e ela foi maior do que a dos pares, sendo que nossa relação dívida/PIB é a mais delicada, e já temos um novo questionamento sobre o fiscal agora”, afirma Fabio Ramos, economista da casa, que prevê taxa de câmbio a R$ 4,95 por dólar no fim de 2021.
O BNP Paribas está entre as exceções, analisando que um ciclo de alta de taxa de juros pode fornecer o ímpeto para apreciar significativamente a divisa brasileira até o fim do ano. A taxa de câmbio de dólar a R$ 4,25 em dezembro é a projeção de Samuel Castro, estrategista para América Latina do banco, call que ele admite ser “bem agressivo”.
“Nossa moeda está frágil em termos de taxa de carregamento, impedindo um ‘catch up’ com nossos termos de troca”, explica. “O real tem muito a andar, existem fatores estruturais da economia global que favorecem a apreciação”, diz ele, referindo-se à política do Fed e mencionando a questão fiscal e a agenda de reformas como “apenas uma parte da história”.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Felipe Saturnino e Marcelo Osakabe — De São Paulo, 03/02/2021

