Em um dia que novos ruídos apareceram na seara política com o presidente Jair Bolsonaro prometendo novas medidas sobre combustíveis, o Ibovespa voltou a cair e interrompeu uma sequência de três pregões de alta. A cautela também prevaleceu nos mercados de câmbio e de juros, que viram firme alta do dólar e das taxas futuras, em um movimento que contou ainda com fortalecimento global da divisa americana.
O Ibovespa fechou em queda de 0,39%, aos 119.261 pontos, em um movimento atribuído a uma realização de lucros após superar 120 mil pontos durante manhã. O giro foi de R$ 22 bilhões. Já o dólar comercial encerrou a sessão em alta firme, de 1,47%, aos R$ 5,4491, deixando o real entre os piores desempenhos do dia entre as principais moedas globais.
Um dos motivos para a virada de humor na bolsa foi a busca por proteção por causa dos comentários do presidente Jair Bolsonaro de que anunciará hoje medidas sobre combustíveis. Em um primeiro momento, os papéis da Petrobras foram para as mínimas do dia em queda de mais de 1%. No entanto, aos poucos, ficou a leitura de parte do mercado de que não se tratava do risco de uma interferência na política de preços, mas a possibilidade de desoneração — de algo que afetaria a situação fiscal.
“A leitura inicial pode ter sido meio torta, de que ele poderia intervir em preços. Mas não parece que ele estava falando sobre preço da refinaria, mas em impostos que impactam preços. Afeta menos a Petrobras, por exemplo, mas aumenta a preocupação sobre o fiscal. Na situação que o país está, sem espaço para aumentar nenhum gasto e com grande resistência em aumentar impostos, falar em cortar impostos por conta de pressão de uma categoria é sempre complicado”, aponta um gestor.
No fim do dia, as ações ordinárias e preferenciais da Petrobras fecharam em queda de 0,10%.
“O mercado ainda espera sinais mais claros de avanços nas reformas e mantém um pé atrás”, diz Vladimir Vale, estrategista-chefe do Crédit Agricole Brasil, sobre a agenda do Congresso após as eleições para os comandos da Câmara dos Deputados e do Senado. “As brigas entre o líder do governo e a Anvisa não agradam e a possibilidade de uma ingerência política na Petrobras também não ajuda nada”, completa ele, referindo-se às falas do presidente e à declaração do deputado Ricardo Barros, que afirmou que tem a pretensão de “enquadrar” a agência sanitária.
Segundo Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, o chefe do Executivo seguiu a linha da ex-presidente Dilma Rousseff, reacendendo temores de intervenção nos preços. “O recado do mercado está dado: ninguém quer interferência, ninguém acha que houve avanços depois do que ocorreu no governo Dilma.” Cruz também diz que houve um ajuste importante de grandes instituições financeiras no mercado de câmbio, levantando a possibilidade de que o fator técnico pressionou o dólar.
Nesta quinta, a alta do dólar e dos juros futuros ocorreu, principalmente, em reação ao chamado “reflation trade” com perspectivas melhores para a economia dos Estados Unidos e o subsequente aumento das expectativas de inflação, o que chancelou ampla apreciação da divisa americana contra as moedas emergentes.
No mercado de juros por aqui, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2027 subiu de 6,90% para 6,99%.
O movimento está muito ligado à perspectiva de mais estímulos fiscais que devem ser despejados na economia americana, com foco no pacote negociado pelo governo de Joe Biden com a oposição republicana.
Voltando ao noticiário local, as ações ON da Vale terminaram o pregão em queda de 1,26%, em uma realização de lucros, depois de firme alta no começo do dia com a notícia do acordo com o governo de Minas Gerais sobre a tragédia em Brumadinho.
Dentre os destaques positivos do pregão, as ações do Bradesco tiveram firme alta e lideraram os ganhos do Ibovespa: a ON subiu 3,07% e a PN ganhou 3,01%. A animação se apoiou em resultados melhores do que o esperado no quarto trimestre e um “guidance” otimista do banco para 2021
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata, Victor Rezende e Felipe Saturnino, Valor — São Paulo, 03/02/2021

