O primeiro mês de 2021 foi de vaivém para a bolsa e para títulos de renda fixa longos, considerados de maior risco. Depois de o Ibovespa superar a marca dos 125 mil pontos no início de janeiro, o principal termômetro do mercado de ações fechou ontem com 118.883 pontos, um recuo de 0,11%. O IMA-B 5 +, índice da Anbima que representa uma cesta de papéis atrelados à inflação com prazo a partir de cinco anos, recuava 2,26%. O dólar voltou a subir, com alta de 4,74%.

Nem por isso, gestores de recursos e especialistas em investimentos perderam o viés positivo para ativos de risco. Contraintuitivamente, foi a sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom), de que pode começar a subir a Selic, que trouxe melhores expectativas, associada ao início da vacinação contra a covid-19.

Ações, Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B, ou Tesouro IPCA), multimercados e fundos offshore aparecem na lista de alternativas indicadas para atravessar um ano que promete ser ainda complicado. O dólar, que serviu de guarda-chuva para um 2020 assolado pela pandemia, não é agora o melhor caminho, segundo alguns gestores de recursos. No manejo das suas próprias carteiras, um dos principais posicionamentos em moedas prevê um real mais valorizado.

 

Com farta liquidez e juros próximos de zero ou negativos, tanto aqui quanto lá fora, não há alternativa a não ser por dinheiro em ativos de risco, diz Fernando Barrozo do Amaral, CEO do GGP Family Office. “Não tem muito para onde correr e não ficar mais posicionado mesmo.”

Com o número de casos da covid-19 voltando a aumentar e pressões para a extensão do auxílio emergencial, a questão fiscal segue como fonte de preocupações. “Tem que ter ativos que tragam potencial de retorno e, consequentemente, têm mais risco. E buscar outras formas de proteção, não dá para ficar de peito totalmente aberto ”, diz Amaral.

Ele sugere uma parcela em fundos que invistam no exterior, para ter uma exposição em moeda diferente. Embora entenda que o alto nível do dólar atrapalhe esse tipo de diversificação agora, o executivo acha que vale aproveitar os momentos de distensão para tomar tal direção. “Se as coisas vão bem e o real se valoriza, o investidor perde o câmbio, mas está, numa outra ponta, em alternativas que estão rendendo positivamente. É pouco provável que tudo esteja ruim no mundo e o Brasil melhor."

Amaral cita que em 2020, com o CDI em 2,77% e o IPCA em 4,52%, ao se tirar 15% de Imposto de Renda de uma aplicação de renda fixa, o investidor teve perda real de 2%. Neste ano, com o Copom indicando que pode aumentar a Selic, há uma mudança tênue, e a percepção é que o juro real será novamente negativo. “O Brasil ainda vai estar num ambiente estimulativo de política monetária e isso tem dado o tom de tudo.”

Com a expectativa que a Selic vá para a casa dos 4% ao ano, ainda será um ambiente ruim para a renda fixa em geral, afirma Amaral. Precisaria ter uma aceleração maior para justificar a alocação, diz. Se antes um passo conservador significava aumentar a parcela em CDI, agora isso tira retorno da carteira.

Para o Tesouro IPCA, que mostrou um bom resultado em 2020, o risco é haver quedas pelo caminho se houver uma deterioração fiscal. A preferência é pelos títulos mais curtos, com vencimento em 2026 e uma parcela menor nos títulos com resgate em 2030.

Dólar, que serviu de guarda-chuva para tempos incertos, pode não servir mais como “hedge”

Bolsa é um ativo que a GGP ainda vê valor pelo combustível do fluxo do estrangeiro e também pela migração do investidor local que tem saído das opções conservadoras. Em meio à avaliação de que não tem muito para onde correr, o risco é inflacionar o preço das ações. “Começa a ter uma conversa se tem ou não bolha, se os preços estão exagerados, se na frente vai haver uma correção forte. Ninguém consegue saber em que momento começa, se está no meio ou perto do fim.”

Os multimercados, na sua visão, são uma boa forma de ter acesso a um portfólio mais equilibrado delegando a um gestor profissional a diversificação entre classes e regiões, para além do kit Brasil.

Ao tirar o “forward guidance” e adotar um tom mais duro sobre o futuro da política monetária, o Copom demonstrou estar preocupado com a influência do câmbio na inflação, diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus. “O BC não pode falar isso com todas as letras, mas está incomodado. O diagnóstico é que precisa ter um juro mais próximo de outros emergentes, como África do Sul ou México, e assim reduzir a volatilidade da moeda.”

O gestor acha que o BC virou a mão mesmo e que o ciclo de ajuste vai ser de meio em meio ponto percentual, já a partir de março, com a Selic chegado a 5% ao ano. “Isso tem grandes implicações para investimentos”, afirma Portella. “O grande ‘trade’ que o mercado teve até aqui, que era comprar dólar e bolsa, e vender juros vai mudar. Com os juros mais alinhados com outros emergentes, o câmbio não vai ser mais um bom hedge, vai ter um desmonte dessas operações.”

Ele cita que o investidor estrangeiro tem no mercado futuro da B3 uma posição comprada equivalente a US$ 25 bilhões, usada como hedge para a bolsa local e para outras moedas emergentes. “É claro que tem risco fiscal embutido no câmbio, mas parece que o diagnóstico do BC é que o diferencial de juros passou a ter um peso grande.”

O gestor vê muito prêmio nos contratos de juros longos e vê essa gordura sendo queimada. Nos títulos indexados ao IPCA, Portella diz preferir os vencimentos mais longos, com taxas perto de 4%, mais a variação do índice de preços. “Protege da variação da inflação. É um investimento de risco, mas quando compara com bolsa tem um ‘sharp’ [índice que pondera a relação risco/retorno] melhor nesse preço, com o BC retomando as rédeas, tirando o juro excessivamente estimulativo.”

Metade do risco do multimercado da Novus está em bolsa. A carteira, que estava dividida entre ações locais e dos Estados Unidos, agora ganhou ênfase em papéis descontados no Brasil. “O que subiu muito nos últimos meses foram bancos e commodities, a parte mais ligada à economia real ficou para trás”, diz Portella. BR Malls, Lojas Renner e MRV estão entre as principais posições. A virada de chave do governo, “comprando a ideia da vacina”, ajuda a ter um prognóstico melhor para a atividade a partir do segundo semestre.

O que deve ocorrer, prossegue o executivo, são algumas mudanças setoriais, com a acomodação dos ativos ao processo de normalização dos juros, entre exportadoras, bancos ou companhias ligadas à cadeia imobiliária. Ele diz que a gestão está muito atenta a ações de valor, principalmente com o avanço da vacinação contra a covid-19. Shopping centers ou companhias aéreas tenderiam a mostrar um desempenho melhor, mais pela recuperação dos papéis do que uma super expansão de resultados que sejam comparáveis a 2019, pré-pandemia.

No geral, Sedrani diz estar mais construtivo com ativos brasileiros, com a tendência de taxas de juros mais altas no curto prazo, porém mais comedidas nos vencimentos longos, o que dá um norte para o financiamento do setor corporativo. O executivo entende que a Selic a 2% ao ano já cumpriu o seu papel, e também incentivou o investidor a ir para ações.

“Quem apostou na queda dos juros ganhou dinheiro no ano passado, e também houve um volume para equity grande, com várias aberturas de capital, empresas se fortalecendo com dívida mais barata”, diz. “No fim das contas, cria uma base melhor em que se consegue crescer com sustentação e números melhores para a economia.”

O executivo acha que o viés segue favorável para emergentes e que o fluxo estrangeiro tende a alimentar os preços por aqui, mas em menor ritmo em relação aos últimos meses. Entre os riscos para um ambiente favorável, ele cita uma reversão nas ações das empresas de maior capitalização nos EUA, o desenrolar fiscal no Brasil e a sucessão nas presidências da Câmara e do Senado. O melhor a fazer é repartir o risco entre ativos locais e posições fora do país.

“O clamor pela extensão do auxílio deixou o mercado um pouco nervoso. Mas não espero uma postura totalmente irresponsável do ponto de vista fiscal”, diz. O gestor cita que os números de 2020 foram até melhores do que se previa, com a dívida/PIB abaixo de 90%, quando se falava em algo perto de 100%.

Junqueira acha que onde tem mais valor é no real, que sofreu muito na pandemia e está barato, quando se compara a outras moedas emergentes, com desvalorização de até 30% em relação aos pares. “Na nossa visão esse prêmio não é todo pelo lado fiscal, parte grande tem a ver com os juros a 2%”, diz. “Quando o BC optou por esse estímulo extraordinário tinha folga grande na inflação. Mas é fato que o câmbio não deixa de ser um mecanismo de transmissão da política monetária.”

Para o gestor, como o câmbio não estava reagindo ao aumento das commodities, havia o risco de o mercado se tornar disfuncional. “A percepção é que o BC deve ajustar a Selic a partir da próxima reunião e rápido, levando a taxa para pouco acima de 4%, a faixa pré-pandemia.”


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Adriana Cotias — De São Paulo, 29/01/2021