Larry Fink, o chairman e CEO da BlackRock, resolveu jogar mais pressão sobre as companhias investidas ao puxar a agenda da sustentabilidade. Na carta enviada nesta terça-feira às lideranças empresariais globais, o executivo pede que apresentem um plano sobre como cada negócio se tornará compatível com uma economia neutra em carbono até 2050 e que divulguem como isso será integrado às estratégias de longo prazo.
Os textos de Fink já viraram uma tradição nos mercados de capitais e de investimentos e vêm com a força de uma gestora que reúne quase US$ 8 trilhões em recursos. Em paralelo, o comitê executivo global da BlackRock, encabeçado por Rob Kapilo e o próprio CEO, enviou uma carta aos clientes sinalizando uma influência ativa nas votações nos conselhos de administração em que participa. Nessa diligência, há companhias em observação que podem ser excluídas das carteiras discricionárias da gestora.
As provocações de Fink vêm do entendimento que empresas, governos e investidores caminharão mais rapidamente para uma economia neutra em carbono - que não emita mais do que aquilo que remove da atmosfera. Para ele, esse conjunto de iniciativas trará implicações para as ações das empresas e para a atividade global.
Quando Fink escreveu no ano passado que o risco climático era um risco de investimento e indicou que a sustentabilidade passaria a ser a estratégia central da gestora, ele esperava que à medida que os mercados começassem a embutir questões relativas à responsabilidade social, ambiental e de governança (ESG, na sigla em inglês) nos preços dos ativos seria o início de uma grande realocação de capitais.
Segundo o executivo, quanto mais uma companhia mostrar o seu propósito e a relação com os “stakeholders” - funcionários, clientes e comunidade -, mais produzirá resultados duradouros para os acionistas. Ao adotar a transição climática e aproveitar as oportunidades que isso traz, a tendência é que o mercado recompense a empresa.
“Acredito que a pandemia apresentou uma crise existencial de tal magnitude - um lembrete tão forte de nossa fragilidade - que nos levou a confrontar a ameaça global das mudanças climáticas de maneira mais enfática e a refletir como, a exemplo da pandemia, elas transformarão nossas vidas”, escreve o CEO da BlackRock.
Prova de que há disposição para ativos associados à sustentabilidade é que de janeiro a novembro de 2020 os investidores em fundos tradicionais e de índice negociados em bolsa (ETFs) aplicaram globalmente US$ 288 bilhões nos veículos com tal viés, um aumento de 96% em relação ao ano todo de 2019. “Creio que isso é o início de uma transição longa, mas que deve se acelerar rapidamente”, afirma Fink, acrescentando que esse movimento vai se desenrolar por muitos anos e reconfigurar os preços dos ativos de todas as classes.
“À medida que mais e mais investidores optem por direcionar seus investimentos a empresas focadas na sustentabilidade, isso vai acelerar ainda mais os movimentos tectônicos que estamos presenciando”, afirma Fink. “E porque isso terá um impacto tão drástico na maneira como capitais são alocados, cada gestor e conselho de administração precisará considerar como isso impactará as ações da sua empresa.”
Nesse cenário, alerta o CEO da BlackRock, não há empresa cujo modelo de negócio não seja profundamente afetado para uma economia neutra até 2050 - o prazo estabelecido cientificamente como limite para manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius. As companhias com estratégias de longo prazo bem articuladas e com um plano claro de transição vão se destacar perante seus stakeholders, por inspirar confiança de que conseguem navegar no meio dessa transformação global, afirma Fink. “Estou muito otimista sobre o futuro do capitalismo e da saúde futura da economia; não apesar da transição energética, e sim, por causa dela.”
Fink diz acreditar que os investidores também serão melhor servidos se a gestora estiver na dianteira da transição para uma economia zero de carbono. Ele cita que as operações da casa já são neutras e que o time está comprometido em apoiar a meta de atingir zero emissões líquidas de gases do efeito estufa até 2050, ou até antes.
Embora reconheça não ser fácil traçar um plano para quase 30 anos, todas as empresas - incluindo a BlackRock - devem começar a abordar a transição para o zero líquido hoje, reitera Fink. A gestora está tomando uma série de medidas para ajudar os investidores a preparar seus portfólios para essa nova configuração.
Para além das preocupações climáticas, econômicas e sanitárias, Fink lança ainda um olhar para o tema da diversidade. Escreve que a sociedade está diante de uma encruzilhada histórica no caminho em direção à “justiça racial”, que não será resolvida sem a liderança das empresas.
“Conforme emitirem seus relatórios de sustentabilidade, pedimos que as suas notas sobre a estratégia de talentos reflitam, de forma integral, seus planos de longo prazo para melhorar a diversidade, equidade e inclusão conforme o caso de cada região”, escreve o CEO. “Nós nos comprometemos com esses mesmos padrões.”
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Adriana Cotias — De São Paulo, 27/01/2021

