As discussões em torno da compra de vacinas pelo setor privado - já chamada de movimento “fura-fila” - faz analistas convergirem para um ponto: o país vive momento trágico em razão dos tropeços e da falta de eficiência do governo central. Mas, ao passo em que veem a possível vantagem dos mais ricos como algo intrínseco à cultura brasileira, fazem ponderações devido a aspectos como a regulação e acham que o debate pode gerar saldos positivos.

Para o economista e escritor Eduardo Giannetti, a depender de como a negociação favorece ou não o bem comum, sendo a primeira condição crucial, a aquisição de doses por empresas brasileiras também pode ou não ser quebra da ética. Autor de “O anel de Giges: Uma fantasia ética”, livro que aborda a relação entre a ética e felicidade, Gianetti ressalta que o grande problema brasileiro no período da pandemia foi a omissão do governo federal em seu papel indelegável de organizar plano nacional de vacinação.

“O primeiro e fundamental ponto é que o grande problema ético brasileiro em relação à vacina é a absurda omissão do governo federal durante muitos meses em relação à compra e ao planejamento do plano de vacinação contra a covid-19”, diz. Na visão do escritor, devido a esse erro que classifica como “falta ética”, o país está pagando preço alto e ficou muito atrás em relação a outras nações que já iniciaram a imunização.

A nova polêmica gira em torno de aval que o Executivo federal deu para que empresas privadas fechem a compra de 33 milhões de doses de vacina da Astrazenca, desde que metade do lote seja doado ao Sistema Único de Saúde, conforme informação do jornal O Globo. Segundo Giannetti, o debate sobre a correção ou não da transação é legítimo. Mas, se o Brasil tivesse governo funcional, e não negacionista, essa questão não haveria sequer surgido no horizonte do combate à pandemia.

Para o antropólogo Roberto DaMatta, o passado surge como tragédia ou comédia, e o que se vê agora é “trágico”. Apesar disso, diz acreditar que acontecimentos recentes, como os ligados à fila da vacina, e o fato de estarem sendo debatidos são aspectos positivos. Segundo DaMatta, a “carteirada” ou o fura-fila da vacina no Brasil são fenômenos que têm semelhanças estruturais e que fazem parte da aversão ao igualitarismo, ainda que seja aquele mais necessário. “Você cria um grande problema no Brasil quando diz que todo mundo é igual”, afirma.

Autor de “Carnaval, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro” (1979), o professor da PUC-Rio diz que a fila é um princípio fundamental da democracia. “Mas uma sociedade que teve rei, escravo, barão, marquês, em que distinções de cor e de gênero são extremamente fortes, evidentemente que quando você diz que todo mundo tem direito à fila, cria-se um problema. Como as pessoas importantes não vão ser vacinadas primeiro?”, diz.

Furar a fila da vacina, porém, segundo ele, é ainda mais grave porque enfrentamos um “inimigo invisível”, que é “democrático”, já que não escolhe quem contamina.

Para Gianetti, não há dúvida de que vacinação é questão de saúde pública. Mas ele propõe o exercício de avaliar diferentes ângulos, devido à falta de clareza sobre detalhes acerca do lote da Astrazeneca.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Leila Souza Lima e Anaïs Fernandes — De São Paulo, 27/01/2021