O tom mais duro adotado pelo Banco Central na ata da reunião de semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu analistas e promoveu diversas revisões de cenário para os rumos da Selic neste ano. Diversos participantes do mercado anteciparam projeções para o início do ciclo de elevações do juro básico e a reunião de março do colegiado entrou de vez no jogo.

Instituições como Itaú Unibanco, Bank of America e Credit Suisse já esperam elevação do juro básico na reunião de 17 de março, em um cenário que encontrou apoio nos juros futuros. No encerramento dos negócios de ontem, o mercado elevou a chance de aumento de 0,50 ponto percentual na taxa Selic em março de 61% para 76%, enquanto a probabilidade de alta de 0,25 ponto caiu para 24%.

Embora tenha antecipado o início do ciclo, a instituição manteve inalterada em 3,5% a projeção para a Selic no fim de 2021. Conforme indicado, “o ritmo de elevação dependerá da evolução da atividade, da inflação e da política fiscal”, diz a equipe chefiada pelo ex-diretor do BC Mario Mesquita.

A possibilidade de antecipação do ciclo de normalização foi o principal fator a derrubar tanto o dólar quanto os juros de longo prazo. No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2027 caiu de 7,47% para 7,34% na B3, enquanto o dólar cedeu 3,39%, para R$ 5,3258.

Na visão dos economistas Thiago Machado e Fernando Sedano, do Morgan Stanley, são os temores fiscais que criam risco altista para as expectativas de inflação e podem desencadear alta de juros antes do esperado. Ao avaliarem a ata, eles apontam que o comitê irá monitorar a dinâmica da covid-19 no país, a atividade econômica e a política fiscal para decidir sobre o momento do aperto monetário.

“Suspeitamos que o último deles é o mais importante, com foco particular nas discussões sobre o Orçamento de 2021 em fevereiro”, afirmam. O Morgan Stanley já havia revisado o cenário, no fim da semana passada, para uma Selic em 3,5% em dezembro, em um ciclo que deve ter início em maio.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, também vê a autoridade monetária em “compasso de espera” em relação ao desfecho das eleições no Congresso e ao risco fiscal, manifestado na possível volta do auxílio emergencial. Para ele, uma deterioração concreta do cenário fiscal faria o Copom antecipar o início do ciclo de aperto já para março.

“Pode ser colocado nesses termos: é um gatilho fiscal. Uma piora nesse cenário forçaria uma elevação da Selic”, sustenta Vale. “Não quer dizer que a manutenção do teto, por exemplo, impediria uma alta de juros neste ano, porque, pelos modelos do BC, é necessário um juro de 3,25% para manter a inflação na meta central em 2021 e de 4,75% em 2022”, aponta. Atualmente, a MB Associados vê a Selic a 3,5% no fim de 2021, com elevações começando em junho, mas Vale analisa que o seu cenário-base deverá ser revisado após os sinais do BC e os gestos do Congresso no sentido de fazer retornar o auxílio - a sua nova projeção pode a Selic em 4% ao fim do ano.

Com projeção de IPCA em 3,7% no fim deste ano, a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, também vê alta da Selic já em março, movimento que a levaria a 3,50% em dezembro. Ele aponta ainda para um tom bastante realista do Copom em relação às pressões inflacionárias recentes, mas ressalta que o comitê poderia ter feito dado essa guinada de comunicação já o último encontro. “Vínhamos observando uma pitada de pressão inflacionária desde novembro, com os preços de commodities, câmbio e aumento da demanda. Acredito que o comitê demorou muito para retirar o ‘forward guidance’ da comunicação. Poderiam tê-lo feito em dezembro, quando o cenário atual já estava consolidado”, afirma.

A expectativa de uma normalização mais rápida também teve forte efeito sobre o câmbio ontem. No entanto, para Ilya Gofshteyn, estrategista do Standard Chartered, a recomposição da Selic ainda não parece suficiente, pelo menos no curto prazo, para tornar a moeda brasileira novamente atrativa. "O BC surpreendeu com sua postura recente. No entanto, seria necessário uma alta superior a 225 pontos-base para superar o peso mexicano - a moeda regional com maior diferencial de juros. Ao mesmo tempo, vulnerabilidades fiscais permanecerão agudas, prejudicando o apetite do investidor”, diz Gofshteyn. “Assim, acredito que o real deve manter uma performance abaixo da média no primeiro semestre, principalmente se levarmos em conta a rentabilidade ajustada pela volatilidade.”

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino — De São Paulo, 27/01/2021