
O fluxo global de Investimento Estrangeiro Direto (IED) desmoronou em 2020, com queda de 42% e atingindo apenas US$ 859 bilhões ante US$ 1,5 trilhão no ano anterior, num dos mais baixos níveis desde os anos 90, segundo a Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
Riscos relacionados à última onda da pandemia de covid-19, ritmo das vacinações e dos programas de apoio econômico, frágil situação macroeconômica em grandes mercados emergentes e incertezas sobre o ambiente global para investimentos continuarão a afetar o fluxo de IED em 2021.
“Investidores devem continuar cautelosos em se comprometer com capital em novos ativos produtivos no exterior”, afirma James Zhan, diretor da divisão de investimentos da Unctad. “Dados sobre anúncios de projetos, um indicador das perspectivas, fornece um quadro misto e aponta para uma contínua pressão para baixo.”

Levantamento preliminar mostra que o fluxo global de IED foi US$ 630 bilhões menor do que em 2019, ou 30% mais baixo do que na crise financeira global de 2009.
As maiores quedas ocorreram no Reino Unido, Itália, Rússia, Alemanha, Brasil e EUA. Alta apenas na China, de 4%, e na Índia, 13%.
O colapso foi concentrado em 80% dos países desenvolvidos, que viram uma queda de 69% na captação desses fluxos, para US$ 229 bilhões, o menor em 25 anos.
As economias em desenvolvimento, por sua vez, conseguiram atravessar melhor o desastre da pandemia, com declínio de 12% no IED, atraindo US$ 616 bilhões.
Como resultado dessa diferença regional, a fatia das economias em desenvolvimento pulou para 72% do fluxo total de IED, um recorde.
Houve recuo em todas as formas de IED em 2020. Fusões e aquisição tiveram baixa de 10%; anúncios de investimentos “greenfields” - com a construção de novas instalações - caíram 35%; e financiamentos de projetos encolheram 2%.
A China, um dos poucos a ter resultado positivo, superou os EUA e liderou o ranking de maior receptor de IED com US$ 163 bilhões. A dependência global de multinacionais em cadeias de suprimento na China durante a pandemia também sustentou o crescimento do fluxo de investimentos para essa economia. Maior liberalização em alguns setores também impulsionou novos investimentos.
Na Índia, a entrada de IED alcançou US$ 57 bilhões, com grandes investimentos estrangeiros no setor digital.
Nos EUA, o fluxo de IED caiu 49% para US$ 134 bilhões. Em meio ao “American First” de Donald Trump, múltis do Reino Unido, Alemanha e Japão diminuíram significativamente seus investimentos na maior economia do mundo.
Na União Europeia (UE), a baixa foi de dois terços. Dezessete dos 27 países membros tiveram queda no fluxo de IED. Por sua vez, o Reino Unido, que saiu da UE, teve resultado ainda pior, negativo em US$ 1,3 bilhão comparado a fluxo positivo de US$ 43 bilhões em 2019.
“O fluxo de IED continuará fraco em 2021 e uma real recuperação só deve começar em 2022”, diz Zhan. A projeção da Unctad é de que o fluxo global cairá mais 5% a 10% neste ano.
Ele nota que forte queda em projetos “greenfield” sugere que uma retomada em setores industriais ainda não está à vista.
Para países em desenvolvimento, “as perspectivas para 2021 são de grande preocupação”. Apesar de o volume de IED nessas economias parecer indicar resiliência em 2020, anúncios de “greenfield” caíram 63% na África, 51% na América Latina e 38% na Ásia, além da queda de 7% em financiamentos de projetos - 40% na África. Esses investimentos são cruciais para capacidade produtiva e desenvolvimento de infraestrutura e para retomada sustentável da economia.
No geral, diz James Zhan, o fluxo de IED parece seguir uma retomada em forma de “U” (queda rápida, estagnação e só então recuperação mais vigorosa), diferente do comércio internacional e do PIB que podem seguir um formato em “V” (queda rápida, seguida de forte recuperação) já em 2021. “Projetos de investimentos internacionais tendem a ter um período de gestação longo e reagem à crise com atraso, tanto na baixa como na recuperação”, afirmou.
Fonte: Valor Econômico - Mundo, por Assis Moreira — De Genebra, 25/01/2021

