A turbulência política no Brasil e as incertezas sobre o combate à covid-19 têm cobrado um preço elevado do mercado local nos últimos dias. O Ibovespa caiu ontem pelo terceiro pregão seguido e zerou a alta em 2021, enquanto o dólar testou a marca de R$ 5,40. Com isso, a bolsa brasileira tem um dos piores desempenhos do ano em comparação a outros emergentes, tanto em moedas locais quanto em dólar, e supera apenas a fraca performance das ações na Argentina.

Ontem, o Ibovespa caiu 1,10%, aos 118.329 pontos, em um movimento que só não foi pior por causa da decisão da Índia em liberar a exportação de vacinas da AztraZeneca para o Brasil. O dólar, por sua vez, subiu 0,95%, aos R$ 5,3631, depois de tocar R$ 5,4003 na máxima do dia.

Assim, em moedas locais, o Ibovespa acumula queda de 0,58% em 2021, enquanto o índice mexicano sobe 1,69% e o chileno ganha 9,62%. Fora a bolsa argentina, que perde 5,38% em moeda local e 7,90% em dólar, foram analisadas também as bolsas de Colômbia, China, Índia, Turquia, Rússia e África do Sul - todas com desempenho melhor que o do Brasil.

Quando considerado o desempenho em dólar, o índice brasileiro acumula queda de 2,82% em 2021, de acordo com cálculos do Valor Data. A desvalorização contrasta com a alta de 2,90% do IPC do México e de 8,33% do IPSA no Chile, que lidera os ganhos.

“A gente está ficando para trás, novamente, por causa da falha em evoluir no cronograma de vacinação. E a demora no cronograma pode levar o governo a adotar novas medidas de auxílio, que geram um custo fiscal ainda maior. Já estava previsto um cenário fiscal difícil, mas a extensão do auxílio pode elevar ainda mais essa conta”, alerta Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de renda variável e derivativos do BTG Pactual digital.

Para ele, o grande problema é a incerteza que pesa nas perspectivas econômicas. Mas, além disso, há o fato de que a alta da bolsa foi muito rápida no começo do ano e, agora, outros fatores começam a entrar no radar, o que afeta o humor dos investidores. “A bolsa deu um salto e agora chega mais insegurança. Além disso, a temporada de balanços está começando. Temos de esperar para ver os resultados também”, acrescenta.

Logo nos primeiros dias do ano, o Ibovespa chegou a tocar a marca de 125 mil pontos em nova máxima recorde. O movimento foi bastante direcionado por ações ligadas a commodities e bancos, em um ambiente global de euforia com a chegada das vacinas e perspectivas de retomada da economia. De lá para cá, houve uma correção nos papéis em meio ao choque de realidade imposto pela falta de organização em torno do processo de imunização no Brasil e o risco de descontrole fiscal.

Ontem, o mercado adotou postura mais defensiva com comentários do deputado Arthur Lira (PP-AL) e do senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) - postulantes às presidências das casas no Congresso - sobre auxílio emergencial.

Para Tiago Sampaio Cunha, gestor da Grou Capital, o contexto neste momento é de vacinação mais lenta no Brasil, que impacta a recuperação e põe em risco um crescimento mais acelerado. “As bolsas no mundo se recuperaram na esperança da vacina, que chegou. Agora começa uma fase de diferenciação entre os países e economias, sobre quem avançará mais rápido na vacinação e, claramente, o Brasil está atrasado”, explica. No entanto, ainda é possível apostar na alta da bolsa. “Mercado de ações não é só fator doméstico. Temos as exportadoras também, que são mais expostas à retomada no exterior”, acrescenta.

A visão mais cautelosa sobre o curto prazo também é compartilhada por Eric Hatisuka, diretor de investimentos da Rosenberg Asset. “A bolsa brasileira está enfrentando uma sequência de más notícias, que deve durar mais alguns dias ou semanas”, alerta o profissional, que mantém visão positiva no setor de commodities. Ele destaca que a pandemia voltou causar muitas mortes, que associada à “incompetência e ao negacionismo” do governo federal cria um risco de crise política. “Além disso, o avanço descontrolado das contaminações e mortes aqui no Brasil indica que retomada do auxílio emergencial é praticamente inevitável”, diz.

Entre os pontos de alerta, na avaliação de Hatisuka, também está a perspectiva de alta de juros pelo Banco Central, que arrisca pesar sobre a atividade em um momento de amplo desemprego. Há ainda uma questão técnica, de acordo com analistas, já que a taxa de juros afeta atratividade da bolsa ao influenciar a precificação dos papéis na bolsa.

Na quarta à noite, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central retirou do comunicado a garantia de que não subirá os juros - o chamado forward guidance - e analistas de mercado veem uma alta da Selic em breve.

Olhando para frente, entretanto, parte do mercado mantém uma visão mais construtiva sobre a bolsa. Zanlorenzi, do BTG Pactual digital, afirma que a ideia é trabalhar neste momento de incertezas no Brasil com ações mais desindexadas da situação local e buscar papéis mais sensíveis ao ambiente global. No entanto, a expectativa é de mais visibilidade no futuro e a leitura segue construtiva para a bolsa. “Podemos ter um segundo semestre muito bom, com Ibovespa a 133 mil pontos no fim do ano, embora sigamos suscetíveis a movimentos abrutos”, diz.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata e Marcelo Osakabe — De São Paulo, 22/01/2021