Apesar da incerteza sobre como o governo de Jair Bolsonaro irá se relacionar com a nova Casa Branca chefiada por Joe Biden, a agenda ambiental do líder americano e do Partido Democrata é positiva para o Brasil. Contudo, tanto as empresas quanto as autoridades locais precisam fazer a lição de casa, segundo o estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli, que participou ontem da “Live do Valor ”.

Para o profissional, a questão da energia limpa como “business” vai ganhar cada vez mais importância ao longo dos anos, com maiores alocações em investimentos sustentáveis, e o Brasil deveria estar atento para aproveitar as oportunidades.

Ao avaliar o cenário atual do Brasil, considerando a questão fiscal e a lentidão nas reformas econômicas, Giacomelli afirmou que o investidor estrangeiro ainda está muito “ressabiado” com o país e que o fluxo positivo de investimentos financeiros que se viu nos últimos meses ainda é “muito tático e sem convicção”.

Segundo ele, as questões internas serão mais determinantes para o mercado local do que as relações com o novo governo dos EUA. Ele alfinetou as idas e vindas na política nacional, sobretudo em relação à questão fiscal.

Giacomelli apontou também que o Orçamento de 2021 ainda não foi aprovado e que o máximo que o governo conseguiu fazer no fim do ano passado foi evitar uma prorrogação do auxílio emergencial, que levaria a um furo no teto de gastos este ano. “Os políticos parecem os violinistas do Titanic”, comentou, em referência à cena do filme em que os músicos tocam seus instrumentos enquanto o navio afunda.

Diante dos “imbróglios” brasileiros, a perspectiva de crescimento do Deutsche Bank para o PIB do Brasil está mais perto de 3% para o fim de 2021, um crescimento marginal baixo, na linha da expansão econômica que se via antes da pandemia.

“Espero que em 2022 seja melhor. Acredito que vamos caminhar com o impulso dessas medidas do ano passado, com incerteza fiscal e política.”

O executivo do Deutsche também analisou a política monetária do Banco Central brasileiro. “Foi longe demais a queda dos juros? Provavelmente foi. O real está entre as piores moedas, mas tem o problema fiscal, então, é difícil dar nome aos bois. Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Ainda dá tempo de corrigir”, disse, projetando a Selic em 3% no fim do ano.

Questionado sobre o cenário para os demais emergentes na era Biden, principalmente em relação às moedas, que tiveram um 2020 difícil, Giacomelli comentou que a questão do dólar é globalmente delicada, pois uma apreciação da taxa de câmbio tende a reduzir os fluxos de capitais para essas economias. Ao mesmo tempo, não há, a princípio, uma tendência forte de enfraquecimento da divisa americana contra essas moedas. “Não está claro se as moedas emergentes se apreciarão ante o dólar sem fazer a lição de casa”.

Sobre o investimento público americano no Brasil, segundo Giacomelli, o efeito da vitória de Joe Biden “é muito pequeno”, visto que ao longo das décadas o país sul-americano se desindustrializou e acentuou a dependência relacionada às commodities. “Não espero muito ou nada nesse sentido” afirmou. Do ponto de vista comercial, a perspectiva de uma relação menos tensa entre EUA e China também gerará pouco efeito. “O Brasil exporta predominantemente commodities e continua exportando bem”, acrescentou.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Roberta Costa, Rafael Vazquez, Felipe Saturnino e Álvaro Campos — De São Paulo, 21/01/2021