O cenário de ampla liquidez global, com perspectiva de novos estímulos fiscais nos Estados Unidos e contínuo apoio monetário do Federal Reserve (banco central americano), voltou a animar os mercados brasileiros. O dólar fechou em forte queda contra o real e o Ibovespa retomou a trajetória de alta. No entanto, a despeito desse otimismo importado do exterior, os riscos de ingerência no Banco do Brasil (BB) e as consequentes preocupações com o comprometimento do governo com a agenda liberal pesaram sobre as ações do banco estatal, que ficaram atrás da perfomance dos pares no setor privado.

O Ibovespa fechou em alta de 1,27%, aos 123.481 pontos, com giro de R$ 23,396 bilhões. O bom desempenho contou o salto de diversos segmentos, incluindo os próprios bancos e ações de empresas ligadas a commodities, como Vale e siderúrgicas.

O que sustentou o ganho, de maneira geral foram comentários do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, de que um aumento de taxas de juros nos Estados Unidos “estão longe” de ser iminentes. Prevaleceu ainda a expectativa com o anúncio de um pacote de estímulo fiscal de até US$ 2 bilhões pelo presidente-eleito dos Estados Unidos, Joe Biden.

O dólar comercial fechou em queda de 1,95%, aos R$ 5,2073, enquanto os juros futuros também reduziram o prêmio de risco. A taxa do contrato de DI para janeiro de 2027, por exemplo, saiu de 7,28% para 7,11%.

Todo esse contexto global evitou um impacto maior de riscos domésticos na bolsa. Entre os principais pontos de alerta está a possível interferência política do presidente Jair Bolsonaro no Banco do Brasil com ameaça de demissão de André Brandão da presidência da instituição.

Ainda assim, a ação do banco estatal recuou enquanto outros papéis no segmento tiveram forte alta. A ação ordinária do Banco do Brasil caiu 0,24%, depois do tombo de quase 5% na véspera. Já Bradesco ON subiu 3,17%, Bradesco PN ganhou 3,07% e Itaú Unibanco PN fechou em alta de 2,97%.

Bolsonaro teria decidido demitir André Brandão, depois da repercussão do plano de fechamento de agências e demissões voluntárias. De acordo com fontes ouvidas pelo Valor, há um movimento da equipe econômica para manter Brandão no cargo, o que ajudou a amenizar a queda das ações, mas a sinalização ainda é bastante negativa tanto para o banco como para o cenário macroeconômico.

Analistas afirmam que a fritura de Brandão vai contra a discurso do presidente Bolsonaro, defendido durante toda a campanha eleitoral, de que se rodearia de profissionais de caráter técnico. Além disso, coloca em questão o comprometimento do presidente com a agenda liberal e reformista.

“Por mais que o governo volte atrás e Brandão não seja demitido, Bolsonaro teria demonstrado que pode retornar aos tempos mais sombrios de Dilma quando o Banco do Brasil era um cabide eleitoral. Isso vai contra o discurso de que iria colocar pessoas técnicas para trabalhar. É cedo para falar das consequências, mas a mensagem é ruim”, diz Luis Sales, estrategista-chefe da Guide.

Outra grande estatal sob a atenção do mercado, a Petrobras teve oscilações nas ações após o forte tombo na véspera. Os analistas da XP dizem que o mercado pode ter reagido de forma exagerada às notícias em torno da políticas de preços da Petrobras e a ameaça de greve de caminhoneiros, “embora continuemos monitorando cuidadosamente desenvolvimentos acerca da política de preços da Petrobras no futuro”.

Eles afirmam que, embora os preços da gasolina e do diesel estejam abaixo das referências internacionais, isso só aconteceu desde 7 de janeiro, “o que não acreditamos ser um período significativo para formar conclusões sobre a política de preços da Petrobras”. “Também destacamos, que este foi um período em que presenciamos uma elevada volatilidade do câmbio, com o real atingindo de R$ 5,50 por dólar em 12 de janeiro, e uma rápida aceleração dos preços de petróleo (Brent), que subiram 4,2% nos últimos seis dias.”

A ação ordinária da estatal fechou em alta de 0,40% enquanto a preferencial subiu 1,03%.

Os investidores também avaliaram os efeitos de uma possível greve dos caminhoneiros. Insatisfeitos com a política do governo do presidente Jair Bolsonaro para o setor, algumas associações convocaram uma paralisação para o dia 1º de fevereiro.

“No momento, acreditamos que a efetividade da ação será baixa por três razões: falta de unanimidade entre trabalhadores do setor, o fato de o movimento ser descentralizado e também de o governo ter sido sensível às suas demandas em ocasiões anteriores”, dizem analistas do Citi.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata, Marcelo Osakabe, Victor Rezende e Felipe Saturnino — De São Paulo, 15/01/2021