O cenário econômico e fiscal de 2021 está repleto de incertezas, a começar pela aplicação das vacinas contra a covid-19 e o sucesso em conter a pandemia, dois fatores que terão reflexo direto sobre a atividade. A travessia será difícil e sujeita a reveses, mas, passado o momento mais duro, o governo entrará em 2022 com mais facilidade de manejo do teto de gastos, embora as tradicionais pressões por aumento de despesas em um ano eleitoral gerem preocupação. As opiniões são de Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos.

“Vai ser muito tranquilo cumprir o teto em 2022, as dificuldades estão restritas a este ano. Se o governo segurar a onda e não romper uma regra que é importante para o investidor, a dinamica fiscal pode ajudar. 2021 será fundamental para manter essa ancoragem”, afirma Megale.

Em seu relatório mensal, divulgado para o Valor, a XP incluiu pela primeira vez a perspectivas para 2022. Nas estimativas da instituição, o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter caído 4,6% em 2020, para avançar 3,4% neste ano e rodar mais perto do potencial em 2022, com alta de 2%. Não se trata, porém, de um cenário líquido e certo. “A covid não desapareceu, a vacinação não está clara e a nossa munição [espaço fiscal] é bem mais restrita”, enumera Megale.

Mesmo sem outra rodada de estímulos generosos para as empresas e famílias, o fiscal ainda estará sob alerta. Para 2021, a XP projeta que o déficit primário deve ficar em 3,1% do PIB, depois de ter provavelmente atingido 10,7% do PIB no ano passado. Já em 2022, o rombo pode diminuir para 2,3% do PIB.

A relação entre a dívida bruta e PIB também seguirá pressionada. Depois do salto de 75,8% do PIB para 90,2% entre 2019 e 2020, o indicador subirá para 91% neste ano e 92,3% em 2022.

“Ao contrário de países vizinhos, como Chile, Colômbia e Peru, que tinham uma relação dívida/PIB na casa de 20% ou 30%, o Brasil já entrou na pandemia com a corda no pescoço. Se os outros países precisarem gastar mais eles terão espaço fiscal, mas o mesmo vale para nós”, afirma.

De todo modo, a operacionalização do teto de gastos terá algum alívio, defende Megale. A descompressão deve ocorrer porque a revisão dos parâmetros do mecanismo terá em 2021 uma dinâmica inversa e mais benéfica do que foi em 2020. No ano passado, o teto foi revisto no meio do ano com um inflação baixa, rodando perto de 2% no acumulado em 12 meses. Mas o nível das despesas obrigatórias foi recalculado, no fim de 2020, com um INPC maior, de 5,4%.

Como resultado, as despesas discricionárias, aquelas de livres alocação, foram comprimidas para R$ 69 bilhões, um valor muito baixo e que ainda pode sofrer redução maior. É um nível arriscado para operar a máquina pública, o que acendeu o alerta sobre um possível “shutdown” de serviços públicos e de furo ou abandono do teto de gastos.

Já em 2022, o teto será atualizado com uma inflação em 12 meses no pico, em torno de 6%, fruto das pressões herdadas do ano passado e ainda presentes nos primeiros meses deste ano.

Em dezembro, no entanto, o índice final (INPC) deverá ficar ao redor de 3,4%, o que abrirá uma folga de cerca de R$ 60 bilhões nos cálculos preliminares da XP. Em números: para 2021, o descasamento entre as duas correções do teto de gastos empurrou os gastos discricionários de cerca de R$ 90 bilhões para R$ 69 bilhões. Já em 2022, este montante deverá subir para R$ 130 bilhões, segundo Megale.

“Um possível alívio pode vir de efeitos da reforma da Previdência, assim como o observado em 2020, que pode compensar parte dessa perda em aproximadamente R$ 10 bilhões. Ao mesmo tempo, a manutenção da desoneração aprovada pelo Congresso pode reduzir outros R$ 4,9 bilhões do montante - caso o recurso da União no STF seja indeferido", destaca o relatório da XP.

No quadro macroeconômico, a virada de 2020 para 2021 manteve o forte desempenho da indústria e a lentidão do setor de serviços, apesar do dado acima do esperado em novembro, divulgado nesta semana. Do lado do consumo, a saída de cena do auxílio emergencial aumenta as apostas de reação do mercado de trabalho como ponto fundamental para a volta da atividade.

Apesar dos dados positivos de emprego formal captados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o contexto geral aferido pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) indica que a força de trabalho ainda não se recuperou e a taxa de participação segue perto de 56%, abaixo da média histórica de 61,5%.

Com mais pessoas voltando a procurar emprego, a desocupação vai subir. “Essa hipótese, aliada à inércia e defasagem natural com a atividade econômica, se traduz em um pico de desemprego no segundo trimestre de 2021, quando projetamos uma taxa de desemprego próxima aos 15,8%”, diz o relatório da XP.

Haverá uma recuperação gradual a partir disso, o que levará a taxa de desemprego para 14,6% ao fim de 2021 e 11,8% no fechado de 2022. “O mercado de trabalho voltará ao que era em 2019. Mesmo com a continuidade de uso de máscaras e outras medidas sanitárias, a nossa perspectiva é que não haverá mais restrições à circulação“, diz Megale.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Hugo Passarelli — De São Paulo, 15/01/2021