Em visita oficial a Nova York, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se mostrou cético em relação à possibilidade de votação da reforma da Previdência no mês que vem. Embora tenha dito que a votação pode ser viável, Maia ressalvou que ainda vê imensas dificuldades.
Ele se encontrou ontem com jornalistas americanos, na sede da Missão do Brasil da ONU, para tratar da agenda econômica do país. Hoje pela manhã Maia se reúne com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e o tema central é a crise dos refugiados venezuelanos na região Norte do Brasil.
Perguntado pelo Valor o que diria à imprensa local hoje sobre o calendário das reformas no Congresso, o deputado do DEM-RJ foi direto.
"Sempre fui muito realista. O governo saiu de uma base de 316 deputados no fim de 2016 para terminar, após a segunda denúncia contra o presidente Temer, com 250. É preciso recompor cerca de 70, 80 votos. A decisão do governo, depois da primeira denúncia, foi a de afastar quem não votasse a favor do presidente. Isso abriu um problema: como se faz agora para conquistar 308 votos? A reforma é urgente, precisa ser aprovada, mas para isso é preciso se reconstruir a base tal como era para se ir ao plenário", disse Maia.
O deputado afirmou ainda ter ciência de que muitos deputados, em ano eleitoral, se não tiverem muita clareza de que há uma base sólida para a aprovação da reforma, simplesmente se absterão de ir ao plenário no dia da votação. "Não vai ser fácil", resumiu. Ao ser questionado se ainda assim, a votação da reforma seria viável ele disse: "É viável com a ajuda dos governadores. Cinco Estados não conseguiram pagar o 13 º do funcionalismo, este número aumentará se a reforma não for aprovada. Não adianta aparecer pleito de governadores querendo aprovar fluxo de caixa de curto prazo, soluções não podem ser de curto prazo mais, é preciso reestruturar as contas públicas brasileiras".
Sobre o estranhamento entre ele e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, também pré-candidato à sucessão presidencial, em torno do rebaixamento da nota de risco do Brasil pela S&P, Maia disse "não misturar as coisas". Em sua opinião, o Congresso Nacional não pode ser responsabilizado por isso, já que votou projetos considerados "praticamente impossíveis". Como exemplo, citou a reforma trabalhista.
"Nós estamos colaborando muito com a agenda de reformas da economia brasileira, com a terceirização, com o projeto do pré-sal, com a recuperação fiscal dos Estados. Não pode parte do governo transferir para o Congresso uma responsabilidade que não é nossa", disse o presidente da Câmara.
O discurso de candidato, embora oficialmente negue a pré-candidatura, se reflete no roteiro da viagem internacional: de Nova York, Maia parte para Washington, onde se encontra com congressistas americanos, participa de um debate fechado na Câmara de Comercio Brasil-EUA e dá uma palestra no Wilson Center; e depois México, onde participa da Conferência LatinoAmericana do banco Santander. Maia, porém, disse que "não está pensando em eleição.
"Se estivesse preocupado com eleição estaria ouvindo o conselho de meus amigos e não manteria a eleição da reforma da Previdência para fevereiro". Mesmo assim, não titubeou em tratar de eventuais adversários.
Sobre o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), disse não acreditar que ele vença. Em relação ao ex-presidente Lula (PT), disse considerar melhor para o processo que ele possa disputar as eleições. "Até para acabarmos com esta tese de que ele é imbatível, e mostrar que o legado de suas administrações não foi uma maravilha para o Brasil".
Perguntado se defender o legado do governo Temer não seria um complicador em uma eventual candidatura ao Planalto, Maia disse ter uma agenda convergente com a do atual governo, mas lembrou que não faz parte do gabinete ministerial do MDB.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Eduardo Graça , 15/01/2018

