Puxado pelo crescimento dos serviços prestados às famílias, o setor de serviços cresceu muito mais que o esperado por analistas em novembro, mas o recrudescimento da pandemia de covid-19 pode frear a recuperação do segmento que mais emprega no país, de acordo com economistas. Uma retomada mais consistente só deve ocorrer com a vacinação em massa da população, afirmam.
A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou crescimento de 2,6% em novembro sobre outubro, feito o ajuste sazonal. Foi a sexta alta consecutiva. Os serviços às famílias deram um salto de 8,2% no período, puxados pelo bom desempenho de alimentação fora de casa e alojamento, segmento muito afetado pelas medidas de isolamento social.
Mas os serviços continuam a se recuperar de forma mais lenta que varejo e indústria e têm chão para sanar as perdas da pandemia. Os serviços totais estão 3,2% abaixo de fevereiro, período pré-coronavírus, e os serviços às famílias, 25,5% abaixo. Nos acumulados de 2020 (-8,3%) e em 12 meses (-7,4%) as perdas são históricas. Dos cinco principais ramos, apenas outros serviços e TI e comunicação voltaram aos níveis do primeiro bimestre do ano passado.
No geral, o setor continua no padrão pandemia, com serviços relacionados ao home office e ao isolamento social (TV por assinatura, internet) e transportes se saindo melhor que os serviços às famílias dos segmentos de alojamento e alimentação. Os chamados “outros serviços prestados às famílias”, que envolvem manicure, cabeleireiro, lazer, cultura, atividades esportivas e educação, cresceu pouco (1,5%) em relação a outubro, e caiu 26,2% sobre novembro do ano anterior, quase a mesma taxa dos dois meses anteriores.
Ainda na comparação com o ano passado, serviços profissionais e administrativos ainda têm queda forte por causa do turismo, das feiras e congressos e serviços de limpeza. “A variação de novembro foi mais alta que o esperado, mas é preciso cautela ao analisar o resultado porque há segmentos que ainda mostram grande dificuldade para reagir”, afirma Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).
Ainda que cenas de aglomeração tenham se tornado comuns em diversas partes do país, essa movimentação não está senda transformada em consumo suficiente para recuperar a receita das empresas de vários segmentos, pondera Tobler. “Por mais que haja flexibilização e que as pessoas saiam, há restrições, há regras sanitárias e parte da população continua cautelosa.”
Nesse sentido, a forte elevação de casos de contaminação e mortes pode colocar um freio na retomada. Em dezembro, o setor pode ter tido um número positivo, mas não na mesma magnitude de novembro. “No Rio de Janeiro, por exemplo, não houve festa de fim de ano.”
O economista-sênior do Banco ABC Brasil, Daniel Xavier Francisco, estima queda de 0,5% nos serviços em dezembro. Indicadores como o movimento em shopping centers em dezembro apontam um arrefecimento dessa atividade. Ele também cita medidas mais restritivas de circulação, ainda que temporárias, como a fase vermelha entre o Natal e o Ano Novo em São Paulo. “Piora o estado da pandemia, aumenta a incerteza das pessoas.”
No médio prazo, os serviços tendem a se beneficiar do avanço do programa de vacinação, afirma Francisco. A previsão do ABC Brasil é que até setembro cerca de 60% da população tenha tomado pelo menos a primeira dose da vacina. Isso geraria uma melhora de expectativas que levaria o setor de serviços a crescer 3,2% neste ano, depois de uma queda de 7,9% em 2020.
A MCM Consultores estima queda de 0,7% no volume de serviços em dezembro, na comparação com novembro. No confronto com dezembro de 2019, a projeção é de queda de 3,6%. Além do recrudescimento da pandemia, o fim do auxílio emergencial e demais programas emergenciais do governo e a indefinição do calendário de vacinação vão pesar sobre os serviços. Soma-se a esses fatores o fato de que alguns segmentos que foram bem no contexto da pandemia, como armazenagem e correio e de tecnologia da informação, não devem ter impulso adicional.
Para a Guide Investimentos, os serviços desaceleram em dezembro, mas ainda devem subir 1,2% sobre novembro. Economistas da gestora acham improvável a retomada de medidas duras de isolamento social, mas ponderam que é um risco a ser monitorado. Se isso acontecer, o setor mais atingido seria novamente os serviços prestados às famílias, que historicamente são responsáveis por 25% do estoque de empregos do setor total. “Com o fim do estímulo fiscal, o retorno da atividade passa a depender cada vez mais da evolução da pandemia e da vacina.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Ana Conceição — De São Paulo, 14/01/2021

