O ano de 2021 tem risco de não ser muito melhor do que 2020, diante do atraso do governo na questão do plano de vacinação e da falta de medidas para melhorar o ambiente de negócios no país. A avaliação foi feita ao Valor pelo vice-presidente da Fiesp e presidente da Abiplast, José Ricardo Roriz Coelho.
“A gente começou o ano com alguns pontos de incerteza muito grande, não só para a economia como para a população em geral. Precisamos de um plano robusto de vacinação, a ser divulgado com clareza para a população, que teria um impacto muito forte na economia. Isso ajudaria a população e permitiria à economia olhar o médio prazo, e não só o curtíssimo prazo como está ocorrendo agora”, afirmou.
Para ele, a saída da Ford do Brasil evidencia os problemas crônicos da economia brasileira e a falta de perspectiva de uma retomada mais robusta do nível de atividade e da demanda. Roriz trabalha com um crescimento da ordem de 3% para 2021, mas ressalta que, depois da queda do ano passado, é muito aquém do que o país precisa.
“A questão da Ford, vejo análises equivocadas, falando dela defasada tecnologicamente. Ora, ela ganhou prêmio nos Estados Unidos com carro elétrico. A Ford, do tamanho que tem, não é por questão de tecnologia que vai sair. Sem dúvida nenhuma ela está saindo porque as condições de se produzir no Brasil são inadequadas para se atrair investimentos, ter boa margem”, disse.
Ele destacou que os subsídios recebidos pelo setor automotivo são “simplesmente para se ter um tratamento igualitário com as indústrias automobilísticas de outros países”. Roriz destacou que a questão da Ford é muito séria, evidenciando um processo negativo de primarização da economia brasileira, decorrente de falta de reformas para melhorar a situação tributária, desburocratização e outras.
“A gente precisava de uma pauta conduzida e liderada pelo presidente da República para enfrentar todos esses problemas de ambiente de negócios, de reformas. Quem pauta é o presidente. Essa agenda não pode estar só no Ministério da Economia, quem controla esse processo é o presidente e hoje vemos uma total falta de convergência, embora os programas do Ministério da Economia façam todo sentido”, disse o empresário.
Roriz apontou que o fim do auxílio emergencial - que ele considera ter tido um volume acima do necessário, atingindo até quem não teria necessidade - deve afetar o desempenho da economia neste ano.
“Acabar com o auxílio abruptamente vai quebrar essa corrente de consumo e o impacto disso vai ser na demanda. Vai ter uma queda violenta de demanda e em um momento com muito desemprego, empresas mais endividadas, governos endividados e famílias endividadas”, disse. “Nós entramos em situação emergencial do ponto de vista econômico, sem ter resolvido o problema da covid”, acrescentou.
Apesar de ser vice-presidente da Fiesp, Roriz hoje está na oposição ao presidente da principal entidade dos empresários paulistas, Paulo Skaf, que tentou se viabilizar para mais um mandato, mas não conseguiu. Com isso, Skaf definiu o processo eleitoral em meio à pandemia, estabelecendo um prazo considerado curto para a apresentação das chapas. Nesse contexto, apear de ter apresentado sua candidatura à presidência, a chapa de Roriz foi impugnada pela comissão eleitoral. Ele tenta na Justiça reverter essa decisão para poder disputar o pleito. Roriz também pleiteia a presidência do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo).
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fabio Graner — De Brasília, 14/01/2021

