Considerada por muitos economistas como fator que pode amenizar o impacto do fim dos estímulos do governo no nível de atividade, a poupança formada pelas famílias durante a pandemia não deve ser destinada ao consumo tão cedo. É o que indica questionário especial da Sondagem do Consumidor realizado em novembro.

Naquele mês, 38% dos consumidores afirmaram que estavam poupando de maneira preventiva, devido à pandemia e a seus efeitos na economia. Dentro desse grupo, 73% disseram que pretendem manter os recursos guardados nos próximos meses. Entre os consumidores de menor poder aquisitivo, com renda familiar até R$ 4,8 mil, esse percentual chegou a 81,2%, destaca Viviane Seda, coordenadora das Sondagens do Ibre/FGV.

“Isso ajudaria a atividade, mas esses recursos não vão ser usados no primeiro semestre”, avalia Viviane, para quem o elevado nível de incertezas no cenário vai fazer com que os consumidores continuem mais cautelosos em seus gastos. “Tem a questão de saúde e também a situação financeira familiar. As pessoas precisam se sentir seguras sobre o que vai acontecer para gastar”, complementa ela, e este não seria o caso agora, com a piora da pandemia no país (média móvel semanal de mortes é a maior em cinco meses), o aumento da taxa de desemprego e o fim dos auxílios.

Em outubro, outro quesito especial da Sondagem do Consumidor mostrou que, para 52,6% dos entrevistados, o principal motivo para postergar o consumo era a incerteza em relação à pandemia, enquanto 31,2% afirmaram que estavam poupando recursos por precaução.

“O comportamento do consumidor ao longo da pandemia foi de cautela: primeiro priorizando compras de bens essenciais, depois bens duráveis em detrimento dos serviços e, por fim, com formação de poupança precaucional para minimizar riscos”, observa a economista.

Para a coordenadora do Ibre/FGV, a postura cautelosa deve continuar no começo do ano, o que reforça a perspectiva de perda de fôlego da atividade no período. “Com o fim dos benefícios, parte dessa poupança será destinada para despesas, porque as pessoas de menor renda não têm muita margem para continuar poupando. Já aqueles consumidores com renda maior vão continuam com essa poupança e vão manter isso por mais tempo. Esses recursos não vão ser utilizados agora”, reforça ela.

De acordo com o quesito especial de novembro, mais de 40% dos consumidores de menor renda acreditam que a poupança terá que ser destinada para quitar gastos correntes. “Dado que esses consumidores são os que menos conseguiram poupar, o impacto no consumo será reduzido por esse lado”, diz a economista.

Mesmo se os recursos guardados voltassem a circular na economia em forma de consumo, seu efeito sobre a demanda seria limitado, aponta estimativa do Ibre/FGV. Os recursos de poupança líquida subiram 21% entre março e outubro, atingindo R$ 176 bilhões no acumulado até outubro, nota Viviane.

Já de março ao início de novembro, foram pagos R$ 248,3 bilhões para 67,8 milhões de brasileiros pelo governo, na forma de benefícios emergenciais. Assumindo que 27% dos recursos da poupança fossem gastos nos primeiros seis meses (percentual de consumidores que pretendem gastar a poupança nesse horizonte), isso seria o equivalente a R$ 47 bilhões, ressalta a coordenadora das sondagens.

“O montante gasto nos seis primeiros meses seria inferior ao de um mês em média do benefício emergencial liberado às famílias em 2020, o que seria insuficiente para evitar a queda do consumo no primeiro semestre do ano”, pondera Viviane.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins - de São Paulo, 12/01/2021