Enquanto parte dos produtores montava em seus tratores para protestar contra a política de revisão do ICMS em São Paulo, as notícias vindas de Chicago não poderiam ser melhores.
Soja e milho iniciam 2021 com os melhores preços dos últimos sete anos, em Chicago. A Bolsa da cidade é a base para os preços mundiais dessas commodities.
Para os produtores que têm conexão com o mercado externo, é um sinal de mais um ano de ganhos. Para os que atuam só no mercado interno, as coisas podem ficar ainda mais complicadas, devido a custos e à renda interna apertada.
A saca de soja atingiu US$ 13,78 por bushel (27,2 quilos) nesta quinta-feira (7), o maior valor desde março de 2014. Já o milho superou US$ 5 por bushel (25,4 quilos) e obteve o maior valor desde maio daquele ano.
Os preços da soja neste início de ano, em dólares, superam em 44% os de janeiro de 2020, quando já haviam sido melhores que os do início de 2019. Já o milho teve alta de 29% no período.
A alta nos EUA se reflete no Brasil. A saca de soja para a entrega em fevereiro está sendo comercializada a R$ 152 em Cascavel (PR). Esse valor supera em 19% o do início de dezembro.
Em Sorriso (MT), as vendas estão sendo feitas a R$ 140 por saca, uma alta de 17% em relação ao valor do início de dezembro.
Entre os motivos do aumento dos cereais em Chicago, está a chegada dos fundos de investimentos às commodities agrícolas.
Com o “dólar index” —uma cesta das principais moedas— no mais baixo patamar desde 2018, os investidores buscam o mercado de commodities.
Para os brasileiros, é um cenário perfeito. Preços em alta em Chicago e valor elevado do dólar no mercado interno aumentam os ganhos em reais. A relação de troca entre produtos e insumos fica mais favorável.
Mas não é só a baixa do “dólar index” que dá sustentação aos preços das commodities em Chicago.
A Argentina, grande produtora e exportadora de soja e de milho, passa por turbulências no campo. O governo interrompeu as exportações de milho, e os produtores protestam contra essa política.
O Brasil, após exportações recordes de soja em 2019, ficou sem estoques e não terá produto para mandar para o mercado externo neste mês, devido ao atraso no plantio. Só em fevereiro parte das áreas plantadas estará sendo colhida.
Os estoques dos EUA estão baixos, após as compras aceleradas da China naquele mercado. Enquanto isso, o fluxo de dinheiro especulativo nas commodities vai colocando mais pressão nos preços dos produtos.
Com a safra americana, que chegou ao mercado no último trimestre de 2020, praticamente negociada, o mercado olha para as safras brasileira e argentina.
A do Brasil, apesar do receio inicial com o clima, não deverá ter a quebra que se previa. A da Argentina continua indefinida devido ao clima incerto.
Fonte: Folha de São Paulo - Mercado, por Mauro Zafalon, 08/01/2021

