Os bem-sucedidos leilões de infraestrutura para a iniciativa privada no fim de 2013 não devem ser suficientes para levar os investimentos a deslanchar neste ano, dizem economistas. Após a recuperação observada em 2013, a expectativa é que os investimentos mostrem comportamento mais tímido em 2014, principalmente por causa da perspectiva de diminuição dos desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES) neste ano, além do cenário bastante incerto para a atividade econômica.
A intensidade com que a desaceleração deve ocorrer, no entanto, não é unanimidade. Economistas consultados pelo Valor estimam que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos e na construção civil) encerrará 2014 entre a estabilidade e alta de 4,7%, depois de avançar algo em torno de 6% no ano passado. Já a média das projeções de 12 economistas e instituições financeiras consultadas pelo Valor Data é de avanço de 2,6% do investimento no período.
Fernando Rocha, economista e sócio da JGP Gestão de Recursos, afirma que após a recuperação mostrada em 2013, quando devem ter aumentado cerca de 6%, os investimentos vão voltar a desacelerar e ficar estagnados em 2014. A expectativa, diz, está relacionada a alguns fatores pontuais que contribuíram para o aumento mais robusto da formação de capital fixo no ano passado.
O Programa de Sustentação do Investimento (PSI), linha de crédito do BNDES para a aquisição de bens de capital, foi bastante relevante para impulsionar a produção desses itens, que aumentaram bem mais do que a atividade nas fábricas. Enquanto a produção da indústria como um todo avançou 1,6% entre janeiro e outubro de 2013, a fabricação de bens de capital aumentou, no mesmo período, 14,9%.
"Muitas empresas aproveitaram o PSI para renovar máquinas e equipamentos, foi um programa com impacto relevante para investimentos", diz Rocha. Além disso, o setor de ônibus e caminhões, que teve um ano muito ruim em 2012, por causa da mudança no padrão dos motores, se recuperou ao longo do primeiro semestre, com efeitos positivos na formação de capital fixo em 2013.
"Agora, o setor já está de novo com problema de acúmulo de estoques, então temos uma nota de cautela para 2014", afirma o economista da JGP. Por último, diante do aumento das críticas em relação à condução da política fiscal e, mais especificamente, do repasse de recursos do Tesouro Nacional para os bancos públicos, o governo sinalizou que o tamanho do BNDES tende a diminuir nos próximos anos.
Enquanto o banco de fomento prevê desembolsos da ordem de R$ 190 bilhões em 2013, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sinalizou que em 2014 os empréstimos do BNDES devem ficar mais próximos de R$ 150 bilhões. "Se confirmada, é uma diminuição importante de recursos, de cerca de 1% do PIB", diz Rocha. A isso se soma o fato de que as taxas de juros no âmbito do PSI vão aumentar a partir do início deste ano.
Para Tony Volpon, diretor-executivo da Nomura Securities, os investimentos também são afetados pelo que ele chama de "discricionariedade da política econômica" do governo. Volpon afirma que a ausência de metas claras para o superávit primário e o fato de que o centro da meta de inflação, de 4,5%, parece não ter mais significado para o Banco Central pesam contra decisões de investimento, porque adicionam imprevisibilidade à dinâmica doméstica.
Além disso, afirma o executivo da Nomura, o atual aperto monetário também não favorece decisões de investimento, que devem aumentar 1,6% em 2014, em linha com o comportamento esperado por ele para o Produto Interno Bruto, de alta de 1,7%.
Rocha, da JGP, observa ainda que a confiança dos empresários industriais segue abaixo da média histórica, o que não tende a se reverter em um ano em que o cenário para a atividade econômica é particularmente incerto. O principal risco é doméstico, com a deterioração da política fiscal. O governo, diz, parece querer "pular" 2014 e adiar o aumento de juros e aperto fiscal que será necessário para acomodar uma inflação mais alta, especialmente quando os preços reprimidos nos últimos anos, como a gasolina, voltarem a ficar mais equilibrados.
"O problema é que, às vezes, o tempo do mercado é diferente do político", afirma Rocha, e o rebaixamento da nota brasileira de risco de crédito soberano, por exemplo, poderia forçar esse ajuste ainda em ano eleitoral.
Para a LCA, os investimentos vão desacelerar, ao passar de alta de 6,6% para avanço de 4,7% neste ano, por causa das incertezas associadas à disputa eleitoral, além do ritmo menor de desembolsos pelo BNDES. Por outro lado, devem sustentar a formação bruta de capital fixo os grandes projetos de Parcerias Público-Privadas (PPPs) estaduais e municipais recém-assinados ou perto de serem fechados. Os leilões de projetos de infraestrutura, que começaram a sair do papel, também vão contribuir positivamente, avalia a consultoria em relatório.
Para Paulo Francini, diretor de economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), as concessões de rodovias e aeroportos realizadas com sucesso no fim de 2013 são bem-vindas, mas até que essas obras se transformem em aumento da demanda por bens de capital deve demorar algum tempo. Com o ânimo do setor industrial abalado, a Fiesp projeta que a Formação Bruta de Capital Fixo vai aumentar 2,7% em 2014, em relação à expectativa de avanço de 6,3% dos investimentos para o fechamento de 2013.
A incerteza predominante em relação ao comportamento da economia neste ano, diz Fernando Genta, economista-chefe da MCM Consultores, tende a levar as empresas a postergar investimentos, na espera de maior clareza após a realização das eleições presidenciais. De fato, algumas grandes empresas já sinalizaram que vão apenas manter o tamanho dos investimentos neste ano.
O grupo Pão de Açúcar , por exemplo, não deve elevar o teto do investimento em 2014 em relação ao anunciado para 2013, e deve aplicar até R$ 2 bilhões no país neste ano. Historicamente, ao longo dos últimos anos, a companhia tem divulgado aumentos na estimativa de investimentos anuais. Já a Vale aprovou no fim do ano passado orçamento de investimentos de US$ 14,8 bilhões para 2014. Após o pico em 2011, com US$ 18 bilhões, o orçamento em 2014 apresentará um declínio pelo terceiro ano consecutivo.
Para Genta, a frustração com a política de reajuste de preços de combustível da Petrobras, que não deve permitir maior alívio no fluxo de caixa da empresa, como se esperava, também vai dificultar a realização dos investimentos necessários pela estatal. O economista projeta alta de 4,2% da FBCF neste ano.
Fonte: Valor Econômico, por Tainara Machado, 07/01/2014

