A queda da taxa Selic, de 14,25% ao ano em 2016 para 2% em 2020, impulsionou um movimento de tomada de risco que ampliou o número de brasileiros que investem parte de seu patrimônio em ações - as pessoas físicas na bolsa brasileira cresceram de 1,6 milhão para 3,2 milhões em um ano, segundo os dados mais recentes da B3.

E, como mais risco incomoda, essa migração para a renda variável também fomentou um incentivo à diversificação dos investimentos - afinal, dividir os “ovos em diferentes cestas” mostra-se historicamente mais rentável.

É nesse contexto que começaram a ganhar ou retomar espaço no mercado brasileiro nos últimos anos fundos de investimentos dedicados a ativos pouco tradicionais, como o ouro, a produção pecuária, as criptomoedas e até a maconha produzida legalmente por companhias listadas em bolsas nos Estados Unidos.

No ano marcado pela pandemia, o que mais chama a atenção é que quase todos os produtos analisados - uma amostra que não cobre todos os produtos disponíveis no mercado - renderam mais do que o Ibovespa, que chegou ao fim de 2020 com alta acumulada de apenas 3%.

Os motivos variam de caso a caso. Os fundos de criptomoedas, por exemplo, dispararam no ritmo do fortalecimento do bitcoin - 2020 será provavelmente lembrado como o ano em que investidores institucionais perderam o medo e passaram a vislumbrá-lo em suas carteiras.

Enquanto o principal índice da bolsa brasileira ficou praticamente no zero a zero até 14 de dezembro (queda de 0,89%, revertida em alta moderada no acumulado do ano), o Hashdex Criptoativos Voyager, fundo de criptomoedas para investidores profissionais, subiu impressionantes 217% no período, e o BLP Criptoativos FIM, para investidores de varejo (e com exposição a criptoativos limitada a 20% por regra da Comissão de Valores Mobiliários), subiu 32%.

Assim como as criptomoedas, o ouro e os fundos que nele aplicam também se valorizaram em 2020, em meio ao movimento de desvalorização do dólar, por sua vez ligado às medidas adotadas pelos bancos centrais para mitigar os danos à economia causados pela pandemia do novo coronavírus que, em síntese, vêm aumentando significativamente a disponibilidade de dinheiro - e, consequentemente, reduzindo seu valor relativo. Foi assim com o XP Trend Ouro Dólar FIM, que subiu 46,26% no ano (até 14 de dezembro).

No caso da maconha, o impulso veio da eleição do democrata Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, que sinaliza para uma flexibilização das regras federais para o uso medicinal da planta, com potencial de destravar investimentos bancários e acesso ao mercado de ações.

O Vitreo Canabidiol FIA IE, por exemplo, um “fundo de maconha” para investidores pessoas físicas, acumula alta de 64% no ano. “A visão para o setor segue positiva, principalmente para empresas americanas. Mesmo que a legalização não venha no curto prazo, algumas das empresas americanas ainda apresentam taxas de crescimento robustas, sendo que algumas já reportam Ebitda e até lucro”, comenta George Wachsmann, sócio e chefe de gestão da Vitreo. Segundo o executivo, as perspectivas para o segmento no curto prazo são promissoras. “Há empresas com vendas anualizadas de US$ 300 milhões, US$ 500 milhões, chegando até aos casos próximos de US$ 1 bilhão”, diz.


Fonte: Valor Econômico - Finança, por Rafael Gregorio — De São Paulo, 04/01/2021