Depois de um ano difícil para os ativos financeiros de países emergentes devido aos momentos intensos de aversão a risco causados pela pandemia, 2021 promete ser mais positivo, em meio à chegada das vacinas. Na visão do chefe global de estratégia para mercados emergentes do BNP Paribas, Gabriel Gersztein, há elementos que permitem aos investidores trabalharem com a perspectiva de mais apreciação dos ativos de países em desenvolvimento, inclusive os brasileiros, apesar da persistente incerteza sobre a política fiscal.

“Podemos imaginar um cenário muito positivo para os ativos emergentes”, afirmou Gersztein em entrevista ao Valor. De maneira abrangente, ele destaca que os ativos desses países estão expostos a duas principais forças sistêmicas: os canais de comércio, nos quais o principal agente é a recuperação da economia chinesa e seus efeitos benéficos ao restante do mundo, e os canais financeiros, em que o destaque é a manutenção de baixa das taxas de juros reais nos EUA e em outras nações desenvolvidas.

“Quando há perspectiva de taxas de juros reais em baixa nos países desenvolvidos, isso tem um impacto muito positivo para o crédito emergente”, diz o executivo do BNP. “Não estamos prevendo que a taxa real dos EUA suba substancialmente como aconteceu em 2013, quando tivemos o ‘taper tantrun’, que fez com que as taxas mais longas abrissem muito. Consideramos um cenário em que o crédito emergente continue crescendo. E, quando falo de crédito emergente, falo especialmente de ‘high yields’, como Brasil, Turquia, Ucrânia, México e África do Sul.”

Gabriel Gersztein, do BNP Paribas: fluxo maior para mercados emergentes — Foto: Divulgação

A equipe de analistas do BNP espera que a tendência de fluxo vista nos últimos meses de 2020 se acentue neste primeiro trimestre, uma vez que a maior parte foi para países com grau de investimento, incluindo a China. Por isso, o banco está confiante de que moedas cíclicas, como o real, o peso colombiano, o rand sul-africano, o rublo e a rupia da Indonésia, se beneficiarão de uma provável rotação para os chamados “high yields” - que têm maior risco e prêmio.

Gersztein também destaca as condições favoráveis de financiamento em dólar, o que causa dois impactos fundamentais. “O primeiro é um dólar mais fraco; o segundo, um fluxo maior para mercados emergentes. Nos últimos meses, há uma tendência de aumento do fluxo de investimentos financeiros para os emergentes, mais significativamente para a Ásia, e vemos essa tendência se acelerando no começo de 2021”, pontua, citando ainda que o programa de compra de ativos do Federal Reserve (Fed) e a consequente expansão do balanço do BC americano é mais um elemento que reforça o cenário de fraqueza do dólar que favorecerá a recuperação das divisas emergentes.

O executivo lembra do “tsunami de liquidez” que tem inundado os mercados globais e favorecido o apetite por risco. O cenário, segundo Gersztein, é reforçado pelos fundamentos dos canais de comércio e a expectativa de alta das commodities, favorecida tanto pela tendência de fraqueza do dólar quanto pelo impulso do crédito, além da política expansionista adotada pelo BC da China.

“É bom lembrar a importância da China como grande consumidor global de aço, cobre, alumínio, níquel e outras commodities. Essa recuperação é outro elemento fundamental para o nosso cenário favorável aos emergentes”, declarou.

Segundo levantamento do BNP, os metais industriais já subiram mais de 70% desde as baixas do fim de março. Gersztein destaca, inclusive, que os termos de troca do Brasil foram os que mais se beneficiaram em todo o mundo em 2020, o que contribui para a previsão ousada do BNP de uma valorização do real que levará o dólar ao nível de R$ 4,25 em 2021. O dólar encerrou o ano a R$ 5,187.

“Os termos de troca do Brasil foram os que mais se beneficiaram entre todos os emergentes neste ano. Por outro lado, o real teve o pior desempenho. Essa dicotomia entre os termos de troca e a performance do real vai ter que se ajustar de um jeito ou de outro. Por uma inflação maior, um fortalecimento do real ou por ambas as coisas. Por isso, temos uma projeção bastante ousada para a moeda brasileira”, diz.

Para o executivo do BNP, as perspectivas para os ativos brasileiros são positivas mesmo com as preocupações sobre a política fiscal e a influência política sobre a questão. “Qualquer notícia favorável à manutenção do teto de gastos vai ser um elemento adicional à apreciação”, disse. “Não trabalhamos com um cenário de quebra fiscal, mas também não trabalhamos com um cenário brilhante. As forças externas são de tal magnitude que, mesmo que as condições fiscais não sejam ótimas, os ativos brasileiros devem se apreciar. Por isso a perspectiva de dólar a R$ 4,25.”

Questionado sobre os riscos políticos que envolvem o tema, Gersztein reiterou que a “questão política” sempre está presente no Brasil. “É como uma dor de costas crônica. Tem dias que você acorda se sentindo bem e disposto até a jogar futebol, mas tem outros que você não vai querer sair da cama. Isso está sempre no cenário, às vezes com mais intensidade, às vezes com menos.”

Sobre o BC brasileiro, o chefe de estratégia do BNP disse que a instituição mostrou pragmatismo ao anunciar o provável abandono do “forward guidance”. “Essa estratégia tem duas coisas. Primeiro, o BC precisa ter compromisso de longo prazo. Não é um instrumento de curto prazo. Segundo, é uma ferramenta que se aplica a economias mais desenvolvidas e não a economias emergentes com uma situação fiscal tão delicada como a brasileira. Portanto, vemos como positiva a sinalização de que voltará ao regime tradicional de metas.”

Em relação à taxa Selic, Gersztein destaca que os níveis de inflação e da recuperação da economia já não justificam um patamar de juros tão baixo no Brasil, e vê um aumento gradual para, no mínimo, 3% até o segundo semestre. “Vai ser o início de um ajuste. As condições não são mais as mesmas que tínhamos no terceiro trimestre [de 2020], quando as perspectivas eram bem mais negativas e ainda nem tinha vacinas” prontas contra o coronavírus.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Rafael Vazquez — De São Paulo, 04/01/2021