Os bancos que estruturam emissões internacionais esperam em 2021 uma nova leva de companhias estreantes nesse tipo de operação - e não necessariamente com receitas em moeda estrangeira. A aposta vem depois de duas operações de sucesso, realizada por empresas do mesmo grupo: Lojas Americanas (Lame) e B2W.
Ambas acessaram pela primeira vez o mercado internacional, com captações de US$ 500 milhões em papéis de dez anos. A Lame veio primeiro, em setembro, pagando um “yield” (retorno) de 4,75%. Em novembro, foi a vez da B2W, e a taxa caiu para 4,375%.
“Primeiro, a Lame captou numa das menores taxas para uma empresa com rating semelhante. Em seguida, a B2W conseguiu a menor taxa da sua história. Tudo isso por conta da melhora da liquidez no mercado secundário, que está oferecendo taxas muito favoráveis às empresas”, afirma Pedro Campos, responsável pela área de mercado de dívidas do Bank of America (BofA). Para ele, o padrão das emissões externas ainda deve ser de companhias brasileiras com receitas dolarizadas, mas a expectativa para que empresas com receitas em reais também captem é crescente. “O objetivo principal vai ser alongar o perfil da dívida e obter volumes maiores. A profundidade lá fora é muito mais ampla”, diz.
Sandy Severino, diretor responsável pela área de captações externas do BTG Pactual, também enxerga mais candidatas a acessar esse mercado. “São companhias que cresceram muito nos últimos cinco anos e agora estão diversificando tamanho, prazo, moeda e até mesmo ‘covenants’ [compromissos financeiros] das operações. No mercado local, eles tendem a ser mais amarrados”, afirma Severino.
Em 2018 e 2019, o mercado doméstico chegou de alguma forma a concorrer com o internacional, ampliando prazos e volumes. Mas a pandemia cessou esse movimento. “O mercado local encerrou o ano mais estável, mas com volumes e prazos menores. Por isso a companhia de porte maior que procura principalmente mais prazo pode aproveitar o mercado externo”, diz Miguel Almada Diaz, superintendente de mercado de capitais do Santander Brasil. No começo de 2020, Eletrobras, Globo e Rede D’Or seguiram esse caminho.
Sandro Marcondes, diretor de project finance e de mercado de capitais do Santander Brasil, avalia que o mercado externo atenderia bem aos interesses de emissores ligados à infraestrutura no Brasil. Nesse sentido, seria relevante incentivos a estruturas em que a captação pudesse ser feita a partir de sociedades no Brasil - as empresas captam via subsidiárias internacionais. Há um projeto do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania) para viabilizar emissões externas de debêntures de infraestrutura, mas que ainda não saiu do papel.
Matheus Licarião, superintendente-executivo de mercado de capitais do Santander Brasil, acredita que 2020 se destacou como um ano de transações inovadoras. Entre os exemplos, a Suzano foi a segunda empresa no mundo e a primeira brasileira a vender um “sustainability-linked bond”. Ao lançar um papel como esse, a empresa se compromete com metas ambientais ao longo dos anos. No caso da Suzano, ela promete reduzir a emissão de gás carbônico - se ela não cumprir a meta, o juro do papel terá um acréscimo.
A empresa captou em setembro US$ 750 milhões em bônus de dez anos e com yield de 3,95%. Essa já era a menor taxa encontrada pela companhia em toda a sua história no mercado. Em novembro, a Suzano reabriu a emissão e levantou mais US$ 500 milhões, a 3,10% - a menor taxa já paga por uma companhia brasileira para um papel internacional nesse prazo, batendo o recorde anterior da Vale, que este ano pagou 3,85% numa emissão de US$ 1,5 bilhão, em julho.
Diaz, do Santander, reforça que, além da questão da sustentabilidade, a Suzano fez uma oferta registrada na SEC, reguladora do mercado americano, e com isso atraiu base maior de investidores.
Outra inovação veio da Braskem, que levantou US$ 600 milhões com um bônus híbrido subordinado. A remuneração saiu a 8,5% - o prazo do título é de 60,5 anos e, a cada cinco anos, a taxa é revisada. As agências de rating consideram o papel como híbrido, 50% dívida e 50% capital. Por ser uma dívida subordinada, em caso de default da companhia, o detentor do papel é o último da lista de credores a ser pago, só antes do acionista. A intenção da empresa era reduzir a alavancagem. Esse papel é mais comum na Europa.
Os executivos também destacaram a Embraer, que conseguiu emitir US$ 750 milhoes em bônus de sete anos, com taxa de 7%. Pagou mais caro, mas conseguiu acessar investidores, mesmo com as preocupações e incertezas com o setor de aviação, duramente afetado na pandemia.
Gustavo Siqueira, responsável pela área de mercado de capitais de renda fixa do Morgan Stanley, cita a operação de outra novata, a FS Agrisolutions, maior produtora de etanol de milho do país. Ela captou US$ 550 milhões em “green bonds” de cinco anos com taxa de 10%, na última operação do ano. “É uma empresa de um setor que não acessava o mercado há muito tempo”, diz Siqueira.
Todos os executivos de bancos acreditam que o tema ESG (sigla em inglês para compromissos sociais, ambientais e de governança) vai cada vez mais dominar as emissões de dívida daqui para frente. Como se trata de uma demanda dos investidores, tende, inclusive, a ter papel mais relevante no momento das precificações.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Ana Paula Ragazzi — De São Paulo, 04/01/2021

