O ano de 2019 premiou quem investiu na bolsa e em fundos imobiliários, mas também trouxe um bom resultado para as carteiras de renda fixa que deve deixar saudades. Com a mudança de calendário não dá para esperar os mesmos retornos para as alternativas ligadas a juros porque a percepção é que todo o ajuste da política monetária já foi incorporado aos preços dos ativos.

 

Para 2020, a expectativa dos especialistas da área de investimentos de bancos e gestoras de patrimônio é que os melhores desempenhos venham novamente de ações, fundos imobiliários e, para quem puder abrir mão de liquidez, da classe de ativos alternativos - fundos de crédito, infraestrutura e de participação em empresas.

A um pregão do encerramento do ano, são as ações do setor imobiliário e de empresas de menor capitalização de mercado na B3 que lideram o ranking de aplicações no ano, com altas de 70,35% para o Imob e de 58,59% para o índice de small caps até o dia 27. O Ibovespa, principal referência da bolsa brasileira, acumula alta de 32,59%, após um rali (+7,67%) em dezembro que levou o indicador para os 116 mil pontos. O índice de fundos imobiliários, aplicação que combina a distribuição de dividendos com a possibilidade de ganho com a variação das cotas em bolsa, sobe 34,77%.

A percepção de que os prêmios na renda fixa se esgotaram se reflete bem na distribuição de alocação recomendada para iniciar 2020 pelo estrategista do UBS Wealth Management, Ronaldo Patah. A instituição indica exposição “overweight” (acima da média de mercado) para a bolsa e para os fundos imobiliários, está “strong underweight” (posição fortemente abaixo da média) em títulos pós-fixados, e “underweight” em papéis prefixados. Há ainda indicação “neutra” (com posições estruturais apenas, em linha com o mercado) para papéis indexados à inflação, multimercados e ativos internacionais.

O cenário que serve como base para essas recomendações é o menor risco de recessão global com a trégua comercial entre Estados Unidos e China, além da vitória dos conservadores no Reino Unido, que sugere uma saída amigável do país da União Europeia. Com esses dois fatores perdendo força, o único ponto de atenção fica para a eleição americana. Assim, diz Patah, num ambiente externo aparentemente controlado deve haver maior disposição do investidor global para a tomada de risco, o que pode significar fluxo de capital externo para o Brasil.

“Com a volta do estrangeiro e a melhora do apetite a risco, há um potencial bom para as bolsas de mercados emergentes como um todo em 2020”, afirma o executivo. “E, dentro dos emergentes, o Brasil aparece bem na foto, com aceleração do crescimento, reformas em andamento e um baixo risco político até meados de 2022 pelo menos.”

Se nos últimos anos o PIB brasileiro rodou com expansão de apenas 1%, para 2020 e 2021 o UBS prevê um ritmo melhor, de 2,5%. E, num cenário de taxas de juros nas mínimas históricas e inflação abaixo da meta, a probabilidade é de, no curto prazo, não haver nenhuma alta da Selic, hoje em 4,5% ao ano. “É um ambiente fértil para o crescimento do lucro das empresas”, afirma Patah.

O Brasil está entre os mercados preferidos do private banking do Citi na América Latina, com a expectativa de crescimento de lucro por ação das empresas da ordem de 15%, após um 2019 praticamente estagnado, com incremento estimado de 3,75%.

Para Dan Kawa, sócio da Tag Investimentos, a despeito da valorização acentuada para as ações neste ano, há espaço para ganhos adicionais num cenário que prevê que os juros seguirão baixos por mais tempo. “As receitas e os lucros das empresas vêm aumentando, há um crescimento sustentável do setor corporativo que segue pouco alavancado”, afirma. “Há uma série de vetores no Brasil para continuar [valorizando as ações], mas vale fazer o alerta de que no Brasil os movimentos não são lineares, são permeados por volatilidade e incertezas.”

Com o rali na bolsa, alguns setores foram mais impactados que outros, então para 2020 é necessário ser mais seletivo para escolher aquelas ações que ficaram para trás, alerta Alcindo Costa Neto, diretor de wealth management do Banco BV. “Os setores de infraestrutura e logística, mais ligados à economia real, andaram menos, podem ter um prêmio importante relacionado ao crescimento do PIB mesmo”, diz. Outro segmento que a instituição acompanha de perto é o agrícola que deu suporte à economia neste ano e pode passar por movimentos de liquidez ou por ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês).

Costa Neto acrescenta que vale olhar para fundos de valor e de crescimento, bem como aquelas estratégias de arbitragem setorial, a fim de capturar ganhos de valor relativo, fora do direcional de mercado. O executivo ainda sugere avaliar oportunidades em fundos imobiliários por haver muitas alternativas de geração de renda listadas em bolsa, com fácil acesso e liquidez.


Fonte: Valor-Finanças, por Adriana Cotias - São Paulo, 30/12/2019